Um espaço para sermos …circunstancialmente…

…que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando muitos…Hb 12.15

Caminhando hoje, deparei-me com essa cena:

Não sei se é possível distinguir a foto mas é um veículo, completamente coberto de plantas, raízes e folhas. As plantas já o “engoliram”.

Acredito que disso trata o versículo acima. No poder que tem uma amargura de, dia a dia, pouco a pouco, ir envolvendo nossa vida. Corroendo. Fixando raízes. Transformando nossa vida em um novelo de raízes, folhas e troncos até que mal se perceba mais quem de fato somos.

Daí o perdão…aquele que nos liberta dessas raízes. Aquele que nos desvencilha daquilo que nos impede de caminhar, daquilo que nos impede de sermos quem somos, daquilo que nos impede de avançar nos caminhos que Deus traçou para nós. Perdão. Difícil as vezes decidir por ele. Chamado por alguns de fraqueza. Contudo, poderoso para nos fazer sair da ociosidade, de uma vida estacionada, estagnada.

Perdoar é ficar com o prejuízo para si. Sim, porque perdoamos e herdamos a dívida. Isso porque perdão é fruto de graça. E graça é fazer algo em favor de quem não merece. Por isso, quando decidimos perdoar ficamos com a conta das ofensas, dívidas, palavras mal-ditas . E lançamos essas dívidas para Deus. Ele sabe bem o que é isso. Ele é Aquele que, na cruz, nos ensinou o perdão. E ficou com a “dívida” da morte. Perdoe.

Ganhar o mundo mas perder a alma – YouTube

Deprimente…

Deprimo-me quando vejo que ontem foi votado e aprovado no congresso a redução da maioridade penal.

Deprimo-me ao ver no jornal um grupo de evangélicos que apedrejaram uma criança por ser esta da umbanda.

Deprimo-me ao ver o esforço e energia da igreja evangélica em golpear o movimento LGBT

Deprimo-me quando vejo uma bancada dita evangélica que esforça-se por causas próprias, ligadas a sua religião e, claro, aos seus eleitores.

Deprimo-me ao ver um deputado gastar energia propondo mudanças no livro dos cristãos, na Bíblia

Deprimo-me porque olho para um pais em constante desconstrução…com crianças morrendo…com jovens sendo estupradas…com direitos descumpridos…com corrupção completamente disseminada em todos recantos e cantinhos da sociedade…com uma igreja evangélica inerte (de forma geral)…com pastores comprados…com seminários dispensáveis…com universidades públicas sucateadas…com uma política cada vez mais polarizada e maniqueísta…com ruas cada vez menos arborizadas e desertas de crianças…

Deprimo-me. E hoje, nessa manhã, talvez mais que outros. É que olho para minhas filhas e penso:

– que país deixarei para elas?

– que igreja frequentarão?

– que educação receberão?

– que qualidade de vida terão?

Deprimo-me. E oro.

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Deus, geralmente, escreve nas entrelinhas. Nós é que só conseguimos tentar vê-lo nas linhas. Somos objetivos, lineares, temporais. Daí nossa tendência à revolta, à impaciência. Preferimos aqueles que “desenham” em nosso plano. A estes, incluímos até Deus…

Tales M Ferreira

junho 2014

 

 

 

Graça

 

Tales Ferreira,                                                                                  19 de abril 2014, Praia de Peroba – Alagoas

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Com muita frequência nos referimos a ela como um ente. Alguém. Não como característica, qualidade de Deus. Mas como um ser independente. “Foi a graça que fez isto”…”Pela Graça conseguimos tal coisa”…etc, são alguns exemplos de frases ditas.

Graça, porém, é uma qualidade que caracteriza Deus. Graça é um bem imerecido. Um favor recebido sem que tenhamos tido nenhum merecimento em seu recebimento.

Mais que isso…Graça é uma atitude injusta de um Deus justo. Sim, Graça é a maior ação de injustiça de Deus!

Visto que somos perdoados sem que tenhamos nenhum motivo para isso.

Visto que fomos perdoados através da ação mais injusta de Deus na história quando entregou seu filho, sem pecado, por nossos pecados.

Visto que sou perdoado, todo dia – sem exceção – sem, em sequer nenhum dos dias, ter sido merecedor.

Visto ser amado por um Deus Amor sem que nenhum bem houvesse em mim.

Visto ter sido feito justo sendo que não há “nenhum justo sequer”, o que me inclue.

Visto ter as misericórdias de Deus renovadas a cada dia sem que, em contrapartida, eu esteja sendo mais misericordioso diariamente.

Por tudo isso, a Graça de Deus é injusta. O que há de mais injusto!

Olhando para o momento da crucificação, onde um dos ladrões, reconhecendo em Jesus ser o Messias, ele é, então, perdoado. Praticou, provavelmente, uma série de ações contra a sociedade durante sua vida. E, sem restituição alguma, foi perdoado. É justo?

Tantos são os exemplos…tantos…

Graça é uma qualidade, uma característica de um Deus que define-se como Amor. Ele, só Ele, sendo, consegue cometer tal injustiça devido a sua Graça.

E, “pela Graça de Deus sois salvos. Isso não vem de vós, é um dom, um presente, uma dádiva de Deus”.

 

Cabelos Brancos

Tales Messias Ferreira

Manhã de 05 de Junho de 2014

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Aprendi a admirar cabelos brancos. Neles, implicitamente (no geral, claro), estão inseridos virtudes que não encontramos noutra idade.

Neles, há uma capacidade cada vez mais rara de encontrar: não viver sob expectativas. Os anciãos já não vivem para alguém. Para impressionar. Com intuito de causar alguma reação alheia. Não. Eles se libertaram da pressão da opinião publica. Com isso, são autênticos. São livres para serem e falarem mesmo que ninguém os escute, siga ou dê atenção. Eles – diante de nossa cultura homicida ante os mais velhos – estão acostumados à desatenção. A não ter eco em suas palavras. Livres, por isso, para simplesmente serem livres da opinião alheia.

Uma outra característica que muito admiro é a inutilidade. São inúteis. E isso é uma virtude! Como assim, você deve estar se perguntando. É que vivemos numa sociedade tão utilitária, tão funcional que apenas pensamos numa pessoa, num ser humano, enquanto ele é útil. Enquanto ele funciona para a sociedade…ou para você. Quando ele passa a ser simplesmente gente. Muitos já aposentados. Quando são somente pais, avós e avôs, marido e mulher. Quando somente são amados pelo que representam. Não pelo que fazem. Nesse estágio – de inutilidade na visão social – eles são mais bonitos que nunca. Finalmente eles são só pessoas. Não mais se escondem atrás de paletós, de mesas, de diplomas, de currículos. Finalmente se tornam pessoas. E, de amor desprentesioso, é o que esperam. Não mais trocas. Não mais barganhas. Amor. Por isso considero uma virtude, nesse caso, a inutilidade. Não faço um convite à inutilidade. Apenas a separo aqui de nossas relações de amor. Utilidade e amor não se coadunam.

Que um dia, já velho, eu veja o mesmo olhar nas minhas filhas. Que ao me olharem elas tenham o mesmo brilho quando olham para mim hoje. Isso, quando sequer eu puder fazer nada. Quando eu puder falar e expressar tudo o que penso. Sem rédeas sociais. E quando funcionalmente eu não mais servir à sociedade capitalista e globalizada. Mas, que para elas, haja brilho e amor. Pelo que serei/sou…nunca…nunca…pelo que posso oferecer em troca.

ImagemToda esta semana o tema nos noticiários e rádios tem sido enfaticamente a morte de um jovem torcedor, no estádio do Arruda, em Recife. Vítima de uma ação assassina de pelo menos três jovens que jogaram latrinas (privadas) de uma altura de 30 metros em direção a multidão que saia do estádio após assistirem a um jogo de futebol.

Este fato tem sido insistentemente divulgado na mídia. Como exemplo da violência em que vivemos.

E, continuando nesta ênfase, quero apenas registrar minha opinião. Não pontualmente…mas de forma generalizada…

Este fato, segundo vejo, repercutiu devido a duas causas fundamentais:

1) Ocasionou morte

2) Foi amplamente divulgado

Não houvessem estes dois fatos o ato não ganharia repercussão alguma.

Por isso – repito: de forma geral – quero afirmar o que penso sobre tudo o que temos visto:

Uma nação que convive com uma violência cultural não colheria algo diferente do que temos visto: pessoas sendo linchadas devido a um boato na internet (como foi visto esta semana), privadas sendo lançadas com o intuito de matar, pessoas sendo mortas devido a brigas e desentendimentos no trânsito, pais que matam os filhos envenenados. Tudo isso, notícia DESTE mês.

Tudo isso são frutos. São consequências. São resultados. É produto final.

Temos convivido de forma pacífica e passiva com diversas formas de causas à esta violência que sequer notamos seus perigos. São fornos onde o fermento da violência está crescendo. São sementes. São adubo para tudo o que temos visto.

Cito alguns:

– Família: a luta (quase um foco obsessivo!) da mídia por descontruir famílias é algo inclusive repetitivo. O que as novelas atuais insistem em mostrar são, todo o tempo, famílias se descontruindo. Terminando. Relacionamentos sendo – constantemente – rompidos. Os motivos: diversos. Tudo vale a fim de que haja um prazer no autor em se mostrar relacionamentos finalizados.

– Convívio rotineiro com a violência fria: utilizando o mesmo exemplo em foco (o futebol) fico abismado quanto à paixão quase religiosa de alguns torcedores por seus times. Não me refiro apenas a torcidas organizadas. Refiro-me até a amigos meus. Leio facebook de alguns e vejo uma paixão religiosa de algumas pessoas por seus…times. Isso é irracional ! Isso não pode ter razão humana…não pode. Após vitórias de seus times não se poupam xingamentos, ofensas, escárnios. Pior, os ídolos são os jogadores que incitam a população a isso. Tudo pode ser dito. Tudo. E a desculpa final é: “no futebol é assim mesmo”. Não é. Não era, pelo menos. Isso, pouco a pouco, vai se criando uma multidão apaixonada numa intensidade acima do normal, acima de uma racionalidade. E essa paixão tem um limite muito tênue para ações e palavras de ofensa pela causa de uma…brincadeira (que é isso que o futebol é! 10 homens de um lado e 10 do outro tentando colocar uma bolinha dentro de um quadrado, com os pés. E dois, tentando impedir isso com as mãos. Ou futebol de uma forma bem simplória não é apenas isso ?).

– População desiludida e sem grandes causas – Não se crê mais em nada ! Ou quase nada. Os políticos…não quero demorar a falar neles. Vota-se sem paixão. Vota-se sem opção. Vota-se buscando derruba alguém não por crença em um outro. O momento é de completa desilusão nos políticos e na política. Na religião, tudo virou um grande circo (e aqui me refiro mais enfaticamente na fé evangélica que é a fé do povo mais pobre e humilde no nosso país): uns bobos ricos animando e enganando (qual mágicos) uma plateia que – lá no fundo – sabem que aquilo tudo é uma grande palhaçada (qual circo !) sem sentido. Que irão de ônibus ou a pé para casa enquanto os pastores voltam para casa em seus grandes veículos. E, na grande maioria deles, eles possuem um mero curso de Teologia (baixaria em teologel…ops). Como não seriam bons profissionais no mercado decidem ser (são vocacionados por Deus ?!) pastores. E, quando podem, ainda empregam sua família na igreja também. As crenças religiosas – repito: generalizando-se – desiludem e trazem mais descrenças do que fé. Resultado de tudo isso: um povo sem ter onde depositar sua fé. Sua paixão. Suas crenças. Gente sem causa. Gente onde as emoções não podem ser canalizadas. Não há ideias. Não motivo sério onde focar sua fé. Deslocam essa necessidade religiosa para outro “campo”, para outra “área”. Nessa outra, não se prega paz, mudança de vida, engajamento político e racionalidade. Nessa outra geralmente prega-se competição, vitória ou derrota. E isso, aliado á paixão, acirra-se na alma.

Nem preciso citar outras causas: desemprego, educação, condições de moradia etc.

Diante de tudo isso vejo hoje cenas de barbárie se tornando rotina em nossa vida. Conseguimos aplaudir um esporte como MMA que nada mais é que a importação das cenas da antiguidade onde guerreiros eram colocados em arenas para que degladiassem até que um deles fosse morto. Voltamos a barbárie. E sorrimos. E fazemos isso…comendo pipoca e tomando cerveja. Rindo. Até que um dia a violência bate em nossa casa…nos toca…sentimos em nossa casa. Nesse dia, vestimos camisa com rostos dos violentados estampados e saímos em passeata pela paz. Fazemos isso num sábado. Mas…a tarde…daquele mesmo sábado…vamos ao facebook xingar alguém e sentamos no sofá para torcemos pelo minotauro, para que acabe com alguém e deixe-o sangrando. Com nossos filhos do lado. Inconscientemente o que eles estão absorvendo?

De que somos assim mesmo…somos e seremos…infelizmente.