Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

(Texto veiculado pelo Jornal do Commercio, no dia 12/08/07, na Coluna Religiões)

 

Ontem estive num supermercado. Além de compras, aprendí sobre a vida. É impressionante como lugares tão comuns podem, inusitadamente, caso sensíveis estejamos, nos ensinar lições melhor aprendidas do que em universidades.

A cena era deprimente e extremamente inadequada para tal lição: terminado as compras fui à fila. Indescritivelmente longa. Refletí que opções teria para evitá-la: mudar de supermercado, procurar outras filas.. Todas as possibilidades foram frustradas. 

Na fila ao lado, duas crianças dentro de um carrinho… e a mãe. Elas, nem um pouco cansadas. Estavam tranqüilas. Sorridentes. Meu cansaço foi-se. Ali, olhando pra elas, o tempo passou…lembrei de minha filhinha, lembrei de minha infância, apenas observei -as e me enxerguei sorrindo ao vê-las brincar.

Só que a vida, quando vivida em plenitude, tem poder de influenciar os que já vivem sem vida. É a “Vida Severina” a qual refere-se João Cabral. É contagiante.. Acaba por inflamar os que vivem sem aparente vida.

Foi o que aconteceu. Primeiro com um senhor. Na minha frente. Antes moribundo, enfezado, irritado com a demora…contagiou-se com a vida. Aos poucos foi entretendo-se com as crianças até tornar-se amigo, parecendo ser quase da família tal era a intimidade e liberdade das crianças com ele. Ele retribuiu. Sorriu muito. Virou ridículo aos olhos dos chamados “adultos”. Tornou-se o fabricante de brinquedos para elas. Um inventor. Fez de tudo e elas adoraram. A essa altura, o contagio deflagrou-se. Atingiu uma senhora. Carrancuda. Religiosa. Pelo tipo de roupa se notava isso e também pelos dizeres. Saia longa. Cabelos presos. Sorriu para as crianças. Elas retribuíram. Jogaram a “bola bexiga” para ela. Ela jogou de volta. Em minutos, as crianças formaram um “time” de voleibol, do lado esquerdo da minha fila. A senhora, sozinha, o outro time, do lado direito. A rede? Os carrinhos na fila. As crianças riam, gritavam. A senhora séria? Tornou-se uma igual. Ela ria, gritava: “vai, vai”. Reclamava quando as crianças paravam de jogar. Suava muito. Acredite: ela pulava como jogadora cortando sobre a rede. Literalmente pulava! Foi impressionante observá-la.

Mas, decepcionante também. Pensam vocês que essas reflexões que agora escrevo me sobrevieram no momento? Não.Enganam-se. Pois no momento eu estava travestido de adulto. E, como tal, sério fiquei. Duas horas de espera. Fui ao Caixa, paguei e fui embora. Só horas depois as reflexões vieram… a vergonha também… de ver que tornara-se um adulto igual.Pois acabamos por gostar daquilo que nos ensinam a desejar. Nós falamos da forma socialmente aceitável. Nós nos portamos de forma que não nos tornemos “ridículos”. Para sermos bem vistos, aplaudidos ou, no mínimo, tidos como um comum, um “normal”.

Qual o problema disto? Só em fazermos esta pergunta nos deparamos com a insensibilidade característica dos adultos. Ou não é problema percebermos que a maioria das crianças pequenas riem (assim como minha filhinha) ao terem contato com uma borboleta e os adultos as matam ou espantam sem nem a perceberem? Ou não é problema vermos as crianças pequenas admirando as flores, até do próprio jardim, enquanto nem as notamos mais ?  Talvez o que nos deixaram como legado do que é ser adulto seja apenas uma sombra do que é a vida. Será que não há uma forma de sermos adultos-crianças? Será que precisamos ser o que somos? Será que não podemos conciliar chinelo e sapato? Sorvete e negócios? Escritório e praia? Computador e Vídeo Game? Flores e pen drive? Borboletas e Excell? Talvez assim consigamos ter vida. E não apenas vislumbres dela. E não apenas “surtos” surpreendentes quando pegos de surpresa com o contagio das crianças. Talvez assim.

Crianças, lhes peço: nos ensinem a como terminar a vida como aqueles dias iniciais, quando tudo era surpresa e descoberta. Qual pássaro recém-saído da gaiola. Pois nossa tendência é retornar a ela. Nos ensinem. O que quero ser quando crescer? Um adulto… um pai, como já o sou…mas que me lembre que o Mestre nos ensinou que “das crianças é o Reino dos Céus” e que precisamos recebê-LO como as crianças.

 

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