Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

 

Muitos anos atrás realizei um evento com este tema: Tempo de Reconstruir.

 

Naquele tempo, juvenil, imaginava  nossa vida sendo desenhada de forma linear. A imagem que acompanhou todo aquele evento foi de um jovem, com uma muda de planta nas mãos, muito verde, em meio a um terreno muito seco, plantando-a. A idéia era representar um renascimento, um recomeço, um reinício de vida.

 

Não era de todo errado aquele pensamento. Continuo crendo na possibilidade de reconstrução. Continuo tendo esperança de que pode brotar vida de onde, aparentemente, só habita a sequidão da morte. Continuo acreditando assim.

 

Mas, já não acho que a vida corre por trilhos lineares. Retos. Aplainados. Ao contrário, as surpresas a cada esquina são paralisantes por vezes. Lembro daquele maratonista, brasileiro, nas últimas olimpíadas. Ele corria confiante. Seguro. Passadas fortes. A vitória era sensível. Repentinamente, do meio da multidão, surgiu um homenzarrão, segurando-o, impedindo-o de caminhar. Resultado: foi o suficiente para ele perder o primeiro lugar. Não houve como reclamar, nem protestar. Foi um evento inesperado. Tirou-lhe a vitória. Ele, diariamente, havia treinado, dedicado-se, suado muito. Um outro, sem razão justificável, esbarrou em seu caminho e tirou dele uma vitória garantida.

 

Há, também, uma história, inventada por Jesus (o que denomina-se de parábola), em que ele relata sobre um homem que caminhava. Caminhava por um caminho conhecido. Por isso mesmo, caminhava seguro. E, também, caminhava com destino certo e previsão certa de chegada. Repentinamente, sem se saber de onde, ele é atacado por outros homens, ladrões, que o roubam, o espancam e o deixam semi-morto. Alguns religiosos começaram a se aproximar, causando, talvez, uma momentânea segurança. Talvez tenha pensado que estaria salvo com aqueles homens. Mas, aqueles, passaram de largo e ignoraram seu sofrimento. Por fim, um terceiro homem passou. Tido como inimigo, já que era samaritano (pois judeus não se dão com samaritanos). Este, porém, pára. Dá atenção. Coloca-o sobre seu jumento e o leva a uma pousada. Pede que cuidem dele. Paga todas as despesas e se despede. Aquele judeu recupera-se completamente e retorna à sua casa. Retorna com uma certeza em mente: surpresas são inevitáveis. Vida completamente administrável e linearmente segura inexiste. Ele, que vinha caminhando por estrada conhecida e com destino certo viu-se, repentinamente, em situação desconhecida, fora de controle e impotente à vida.

 

Hoje, após eu mesmo ter me encontrado com inusitadas surpresas, descaminhos, atalhos súbitos e que nos levam a labirintos existenciais, percebo vários ensinos, fruto da pedagogia natural da vida e dos sofrimentos:

 

1)      Aprendí que não posso confiar na vida como uma rota perfeitamente administrável e segura. Há surpresas. Algumas trazem imensa alegria. Em outras, estáticos ficamos diante da dor;

2)      Aprendí que o Tempo de Reconstruir não se faz em um evento, nem em uma determinada fase da vida. A vida, dia  a dia, tal qual estalactites em rochas, vai nos construindo lentamente. Pacientemente. Quem catalisa esse amadurecimento são os sofrimentos e, também, nossa consciência real de quem somos, de nossas limitações e desafios;

3)      Aprendí que, diante da vida, rico é aquele que é sensível a Deus e possui amigos. Quem é sensível a Deus consegue enxergá-lo no meio da escuridão, mesmo que continue sem enxergar caminho ou saída alguma. Mas, enxergando-o, consegue ter confiança de que haverá caminho. Já quem possui amigos, destrói uma das maiores peçonhas que nos fazem sofrer: a solidão.

4)      Aprendí (e devo este ponto ao meu pai) que, no meio da dor e sofrimento, além de lágrimas, precisam existir projetos. Meu pai, em meio aos seus próprios desertos, buscava papéis e caneta para esboçar saídas possíveis para aqueles problemas. Verdade é que muitos projetos frustravam-se, mas a mente permanecia viva, teimando em perseverar crendo.

5)      Aprendí que, quando em meios aos sofrimentos, melhor remédio é buscar consolar a dor do outro. No meio de nossa dor temos a sensação de que ninguém mais sofre com intensidade maior do que nós. E nos isolamos. Quando nos doamos, nos desfocamos da própria dor. A murmuração contínua então, que se torna quase alimento diário, vai se esvaindo… pouco a pouco…

 

Tempo de Reconstruir. Foi este tempo ontem. Tem sido hoje. Continuará sendo. Nunca de forma linear. Mas, sim, em caminhos obtusos, curvos, parabólicos.

 

Quem possui consciência disto, vive. Vive em paz por saber que o aprendizado é contínuo. Vive humilde por saber que é alguém incompleto sempre e ainda “por acabar”. Vive levando paz aos outros mesmo que a vida, esses “outros” e as surpresas tentem levá-lo a viver existencialmente “em guerra”. Vive sempre com uma sadia insatisfação, buscando ser melhor sempre, por reconhecer que ainda há mais pra se ser. Sempre.

Enfim, vive.

 

 

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