Um espaço para sermos …circunstancialmente…

 Tales Messias

 

“Negras sofrem discriminação em dose dupla”, foi o título do artigo de um jornal de minha cidade na semana passada. Neste, eram apresentadas estatísticas onde mostrava-se a cruel realidade das negras, no Recife:

– elas ganham 55% menos que as mulheres brancas;

– elas ganham cerca de 40% menos que os homens negros;

– elas ganham cerca de 110% menos que os homens brancos.

 

Esse artigo precisa adaptar-se em minha mente como alguém em estado febril. Precisa servir de termômetro, sinal interior. Precisa apontar para algo errado nas entranhas de nossa sociedade. Precisa servir ao menos como uma “luzinha” de nosso painel de carro apontando para algum defeito sério em nosso mecanismo social. Demorei dias com esse texto em mente…e só agora decidi escrever…como minha réplica…

 

Já é madrugada. Hora de descanso. Mas, em alguns dias, hora de reflexão e inquietação. Hora onde, cessado à inquietação interna do dia – geralmente gasto em atividades externas a nós – nos encontramos conosco mesmos e mergulhamos em áreas que buscamos fugir. E me enxergo com diversas perguntas…muitas. Algumas pessoais, individuais…outras à sociedade…ainda outras a algumas instâncias institucionais dessa sociedade:

 

– Que tipo de educação quero dar a minha filha? Já que ela provavelmente não sofrerá discriminação racial e nem ganhará menos por não ser negra?

– Como cristão, é só isso o que ando fazendo que devo continuar fazendo? Resume-se a isso o cristianismo? Onde coloco aqueles ensinamentos de Jesus onde ele nos pede pra cuidarmos dos fracos e dos desamparados socialmente? Onde enfio Provérbios que nos manda erguer a voz pelos excluídos socialmente? Para que buraco jogo Miquéias, o profeta, que ergueu sua pregação forte contra aqueles ricos que esqueciam os pobres e suas madames – chamadas de vacas  pelo profeta – que davam-se ao luxo e à mordomia? Para debaixo de que tapete largo outro profeta – Isaías – que condena aqueles que acumulam riquezas e terras tornando-se “os donos da terra”?

– Como cristão, é só isso o que devo continuar fazendo? Onde estão as negras em meu bairro? Em meu trabalho? Eu as enxergo pelo menos? Ao menos eu sei que elas enfrentam discriminação no dia-a-dia? Ou, de tão insensível, já se tornou imperceptível?

– Para que meus cultos dominicais se tudo se resume aos domingos? Para inspiração para a semana inteira? Para isso realmente é ótimo! Mas…é só isso?

– Falando em igreja… onde estão elas…onde estão os negros nela? E onde as negras? Quanto elas ganham? Ganham o mesmo nível de salário que as discriminadas da pesquisa? Não?? Sei a razão…é porque sequer estão empregadas lá. Na verdade, sequer freqüentam. Para que as igrejas existem? Perguntaram a Jesus se o que está funcionando hoje é o que Ele projetou? Digo isso porque o vejo andando entre os pobres, entre os mancos, entre os leprosos, entre os coxos, entre aqueles que ninguém queria andar, tocando nos que eram considerados impuros e indignos, libertando aqueles que a sociedade escolheu para viverem presos, chamando para perto aqueles que viviam “de largo”, pelos caminhos. Ele devolveu à casa aqueles que viviam sem família, com ânimo hiperativo, correndo em locais desertos e sombrios.  Condenou aqueles que achavam-se sãos e limpos. Achou o diabo dentro de lugares tidos como santos, tal qual sinagogas. Jesus viveu assim. E nós? E eu? Será que não estou privilegiando aqueles lugares e pessoas que Jesus condenou? Será que não estou vivendo o averso do que Jesus afirmou?

– Quanto ao governo…não tenho mais o que dizer…ele fala por si mesmo…o atual estado de descrença apresenta raízes: cansaço de ver mensalões, de ouvir frases ocas de “lulas” sem que o “polvo” seja ouvido; estafa por ver diariamente repetidas “cuecas” sujas; “caducos” cadocas realizando festas; Partido, partido, dos Trabalhadores; Infantis “Garotinhos” e “marmotas” Suplicys; políticos viciados em poder e que, após anos, mesmo de mandato infrutífero, tentam retornar a ele com suas “barbas”, Vasconcelos. Cansei destes. E como só se deve atirar pedras aquele que está sem pecado… agora eles fecham as portas… e secretamente votam em todos como “inocente”. Para que seus próprios pecados não venham à tona, pois tornar todos os culpados em inocentes vem a “calhar”, como Calheiros.

 

Preciso rever meus caminhos. E preciso rever sempre. Nossas injustiças e patologias socias estão tão intrisecamente espalhadas em nossa cultura que corremos o risco de, gradualmente, irmos nos acostumando com elas. Até que algum “profeta-jornalista-escritor” nos chame a atenção, para nós mesmos e nossa sociedade.

 

Porque o grande mal de nossas vidas é a rotina. A rotina tem poder de nos roubar a sensibilidade, de nos furtar a percepção dos detalhes. O resultado é que acabamos nos acostumando com situações que nunca deveríamos nos acostumar. Perdemos a capacidade de nos indignarmos com aquilo que nunca deveríamos ter nos acostumado. Isso pode acontecer conosco, pode acontecer com as instituições e acabam por tomar conta de toda a sociedade. Por isso que olhamos para as negras discriminadas, para os meninos de rua, para os mendigos e, de tanto ver, nos acostumamos. Eles se tornaram parte do cenário. A situação deles não nos afeta mais. Não nos sensibiliza mais.

 

Termino aqui com uma cena acontecida com o Martin Luther King: Ele estava preso. Por causa de sua luta contra o racismo e segregação racial. Ele, um pastor batista, cristão, lutou veemente contra a discriminação…e foi preso. Um dia, um grupo de 10 pastores brancos foi visitá-lo na cadeia. E, por muito tempo, eles tentaram convencer Luther King de que não deveria continuar sua luta e seu movimento. Ele deveria “esperar em Deus”. Ele, então, com olhos cheios de lágrimas, respondeu a eles …

“Vocês me pedem para parar com minha luta porque vocês não têm em casa uma filhinha. Negra. Assistindo televisão e vendo uma propaganda de inauguração de um novo parque na cidade. E minha filhinha vira-se pra mim e pede “papai, eu quero ir. Você me leva?”. E eu tenho que explicar a ela que ela não pode ir lá. E ela me pergunta: “Por que, papai?”. E eu só tenho uma resposta: ‘Porque você é negra, minha filha. Porque você é negra. Deus lhe fez assim.’ Vocês me pedem isso, porque vocês não precisam passar por isso!”

 

Que Deus e nossa consciência nos ajude a enxergarmos o outro. Os que sofrem. Os esquecidos, desamparados e discriminados. Que nos ajude a enxergá-los. E após vê-los, olharmos pra nós mesmos para que possamos ver nossa própria culpa na manutenção dessa sociedade da forma em que ela está. Incluindo nossas casas.

 

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