Um espaço para sermos …circunstancialmente…

CAMINHANDO…

Tales Messias

 

CAMINHANDO…

(Baseado na história bíblica do Bom Samaritano)

 

Certo homem, seguro de si, num dia aparentemente comum, caminhava. Caminhava com destino certo. Ele tinha morada certa e andava para um local já conhecido. De Jerusalém ele se encaminhava para Jericó. A estrada era conhecida, o percurso e os percalços também. Enquanto aquele homem caminhava, num dia comum, numa estrada conhecida, para um local não desconhecido, exalava em seu rosto tranquilidade e segurança.

 

Qualquer pessoa que tenha conhecimento da estrada que trilha, do rumo que tomou e do destino de sua peregrinação, vive externando segurança. Seu semblante é de alguém que tem a vida sob controle. De alguém seguro.

 

De repente, porém, subitamente, algo estranho, inesperado, fora do script pré-determinado acontece: aquele homem é golpeado, espancado, esmurrado incansavelmente. Não só fisicamente é atingido mas, a essa altura, sua suposta segurança foi abalada. Aquela estrada conhecida guardava mistérios. Sua alma, antes segura, agora sofre pelas surpresas. Como é difícil ser surpreendido por tragédias e mudanças de rumo!!! Assaltantes, então, espancam aquele homem, roubam tudo e o deixam quase morto na estrada. E nu.

 

Muita poeira, muito sangue, muita dor, tantas dúvidas agora. Sem mais nenhum senso de direção, sem mais forças pra reagir, fugiu dele aquela  antiga sensação de segurança e controle. Assim ficou aquele homem.

 

Assim ficamos nós quando, inesperadamente, a vida muda o rumo. Sem avisos prévios. As surpresas nos tiram aquela falsa sensação de segurança e controle. O poder de reação às vezes nos foge. A direção fica confusa. Um profundo sentimento de solidão aparece. Nu ficamos. Vulneráveis.

 

De repente, passos. Aquele homem, abrindo um pouco os olhos, vê se aproximando alguém com roupas conhecidas: um sacerdote. Novamente teima em voltar aquele sentimento de segurança pelo que se conhece. E o homem pensa: “que bom. Estou salvo. Um homem bom, de Deus, me ajudará.” Ele, então, fecha os olhos – cansados e doloridos – aguardando um toque em seu corpo, uma mão amiga a ajudá-lo. Os passos, porém, não diminuem o ritmo. E vão se esvaindo, indo embora… As dúvidas retornam…e aumentam…

 

Novos passos, os olhos se abrem novamente, menos esperançosos agora. Novamente um estilo de roupa conhecido: um levita. “É um homem de Deus, esse me ajudará.” Novamente os passos se vão, e com eles a esperança. Vem, porém, a frustração, o medo, o sentimento de desamparo.

 

Pela terceira vez, novos passos. Ele já nem mais abre os olhos. Cada vez sente-se mais morto e menos disposto. No corpo e no espírito. Mais inseguro. De repente…um toque…uma voz…alguém o segura forte. Dói muito aquele toque. Mas, agora, são mãos de ajuda. O homem é colocado sobre um cavalo. Cada pisada do animal, faz o homem gemer. O homem é levado a uma pousada, deitado numa cama, tratado, amado… e dorme. Antes, porém, abre mais uma vez os olhos… e vê quem o ajudou… um samaritano ?! Um inimigo ?!

 

Tantas são as vezes que, no meio da dor e de tanta aflição, somos surpreendidos pelo amor  de pessoas que nunca pensaramos receber. Um amor desobrigado, apenas amor!

 

Dias depois – até porque a cura dificilmente vem de forma instantânea nem através de fórmulas pré-estabelecidas– aquele homem vai embora. Descobre, antes, porém, que todas as despesas já foram pagas.

 

Ao retornar, há um misto em seu coração. Temor por reconhecer que era falso aquele sentimento de segurança e controle. A vida, por vezes, nos surpreende com notícias e eventos que nos tiram completamente a sensação de controle e administração de nossa vida.

 

Mas, além de temor, um profundo sentimento de que sua vida foi levada a um novo, e mais alto, patamar. De que aquela experiência, de ter sido subjugado, maltratado, espancado, desrespeitado, roubado, deixado nu …trouxe à sua alma uma sensibilidade nunca antes sentida. As perdas, as falências, as humilhações e solidões trazem muita dor, mas, junto a ela, vêm sensibilidade – a Deus e aos que sofrem – vêm disposição para a meditação e reflexão, entendimento de que muito do que se fazia era mera coreografia, enfeite, sem profundidade para a alma, ganha-se solitude diante de Deus, respeito à vida sem esquecer-se de que ela, por vezes, nos lança num epicentro de um furacão.

 

Aquele homem, antes tão seguro …volta agora, pra casa, pensativo e refletindo. Vez por outra, ainda caminhando, lágrimas saem dos seus olhos. É ele percebendo que sua vida pode ser muito mais profunda do que já foi. Pode ser menos previsível do que já foi. Que irá confiar menos em si mesmo, em suas capacidades e conhecimentos, do que antes. Que aquele senso de que podemos administrar completamente a vida, tê-la sob controle, é uma ilusão. Que não podemos fugir às perdas, desilusões e falências mas que a profundidade e a maturidade vêm anexadas aos sofrimentos.

 

E assim ele volta… e … finalmente …aquela estrada se tornou um caminho.

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