Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

 

“Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”

 

Essas são palavras de Jesus para Pedro. Sempre admirei Pedro! Não pelos milagres realizados por ele. Não por sua liderança. Não por ser um dos pilares do cristianismo primitivo. Sempre o admirei por sua humanidade. E, por essa razão, sempre me vi nas atitudes de um Pedro temperamental (quantas vezes quis enfiar uma espada em alguém. Mesmo que conseguisse arrancar só uma orelhinha); de um Pedro extremista, exagerado (quantas vezes teimei com Deus – tal como Pedro que não quis  que o Mestre lavasse seus pés – para logo em seguida abrir-me completamente a Ele – assim como o Pedrão: “lava-me completamente, Senhor); de um Pedro que quando acerta algo (“bem-aventurado és Simão…porque do céu te foi revelado”) logo se enche e se incha levando-o a pecar e tendo que ser corrigido por Deus(“arreda, satanás, tu és para mim pedra de tropeço…”).

Por isso, o que mais me causa admiração em Pedro é sua semelhança comigo. E por isso sempre penso: “se houve jeito para Pedro, há jeito para mim também”.

 

Com a frase de Jesus para Pedro (“Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”), apesar do evangelho afirmar que essa frase foi dita com a intenção de indicar qual a morte que Pedro teria (crucificado, tal qual Jesus), quero propor um outro modo de interpretá-la. Isso não é idéia minha. Costumo citar as fontes de minhas idéias: esse novo modo de interpretar esse texto é do Henry Nouwen. Ele entende que essa frase nos leva ao discipulado. Com essa frase Jesus queria nos ensinar que quando jovens – não apenas na idade, mas na maturidade – guiamos nossas próprias vidas. Caminhamos segundo nosso próprio pensamento e desejos. Não pensamos nos outros. Não medimos conseqüências. Não calculamos os prejuízos. Somos guiados apenas por nossos desejos e por aquilo que apenas nos satisfaz.

 

Quando vem a maturidade…continuamos tendo desejos escusos. Obscuros. Maliciosos. Distoantes. Mas, com a maturidade entendemos que maior que nossos desejos está a vontade dEle e também o que chamamos “bem comum”. Na maturidade, entendemos o que é amar ao próximo como a nós mesmos. Entendemos que precisamos pensar no outro e buscar o bem do outro. Aprendemos a renunciar nossa própria vontade em favor do bem alheio. Não chamem isso de massa manipulável. Nem de “Maria vai com as outras”. Não é disso que falo. Falo de solidariedade (quando doamos algo nosso a fim de que todos ganhem). Falo de sensibilidade (quando passamos a sentir as dores do outro como sendo nossa própria dor). Falo de coletividade (quando buscamos o que é bom para todos e não apenas o que beneficia a mim). Falo de comunidade (quando entendemos que vida em comum exige renúncia a fim de que todos cresçam. É o oposto de egoísmo).

 

Pedro tornou-se nesse homem. Alguém que se doou a fim de que todos recebessem. Alguém que renunciou crenças e paradigmas e que reconheceu que necessitava expandir-se em várias concepções e convicções (quando foi conscientizado por Deus – e por Paulo – de que precisava considerar os gentios como sendo iguais aos judeus). Alguém que deixou ser preso pacificamente porque reconheceu ser privilégio sofrer pelo evangelho.

 

Se houve jeito para Pedro, há jeito para mim e você.

“…quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”. Desejo aprender isso um dia. Quero ser vestido por outro, aprender que outros poderão me cobrir de meu “frio” e necessidade, reconhecer que por outras pessoas posso ser “aquecido”, protegido. Quero aprender a renunciar meus próprios desejos. Quero aprender a não ver a mim mesmo. Quero aprender a ter prazer em ver os outros me guiando. Mesmo que para caminhos que eu não deseje ir. Mas, quero aprender a ser guiado. Desde que não contrariem minhas convicções de fé. Mas, quem sabe se até nas minhas convicções não precisarei reaprender com outros? Quero aprender esse caminho.

 

Sempre fui ensinado que quanto mais maduro mais nos tornamos bons chefes. Por esse texto aprendo que quanto mais maduros mais nos tornamos abertos à liderança de outros. E que quanto mais maduros líderes formos, saberemos pensar no outro, viver para o outro.

 

Se houve jeito para Pedro, creio que haverá jeito para mim e para você.

 

 

 

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