Um espaço para sermos …circunstancialmente…

 Tales Messias

 

Por que insistimos em dizer que somos completamente sãos?

Por que necessitamos afirmar que dificilmente nos enganamos?

Por que a infantil preocupação de parecermos seguros?

Perdoem-me mas os infantes não são assim…eles assumem sua fragilidade.

Aos adultos cabe esse ofício de precisa demonstrar força e poder.

 

Por que teimamos em refletir uma imagem de plena segurança?

Por que nossa ânsia imatura de sermos conhecidos como aqueles que não perdem o controle?

Por que o medo de mostrar nossas sombras?

 

Você não concorda com o que digo? Não….? Será que estou enganado…

Ou nunca prometemos o que sabíamos não sermos capazes de cumprir?

Ou nunca demonstramos falsamente uma apreciação por alguém quando, no íntimo, havia reprovação e desgosto?

Ou nunca fizemos, escondidos, algo que sabíamos ser digno de gozação?

 

Quantos amores declarados…que foram se esvaindo com o tempo.

Quantas amizades, oralmente declaradas, que foram esquecidas.

Quantas palavras de fidelidade tornaram-se, no mínimo, indiferentes.

Quantos sorrisos espalhados quando, na verdade, apenas queríamos ser gentis.

Chamamos educação a isso… impossível chamar falsidade. Seria vil. Melhor o esmalte

externo que o frágil barro interior de um vaso.

 

Quantas falsas impressões refletimos na busca insana de parecermos o que não somos.

Quantas roupas caras compradas com a intenção de cobrir nossa alma pequena, complexada.

Quantos sapatos valiosos adquirimos a fim de escondermos os frios caminhos

por onde andamos.

Quantas acusações e condenações lançamos apenas para não vermos nossos próprios

e semelhantes erros?

 

Como é difícil nos vermos, nos enxergarmos.

Como dói a dura realidade da alma humana.

Como tentamos nos desvencilhar de nós mesmos

A exposição direta ao que somos nos envergonha.

É tão melhor a doce ilusão, por isso falsa, de quem imaginariamente gostaríamos de ser.

 

Mas, é libertador nos aceitarmos frágeis.

É sábio aquele que conhece suas potencialidades mas não rejeita suas imperfeições.

Que, em si, percebe força e fragilidade, sensibilidade e sequidão, coragem e medo,

inteligência e imprudência, conhecimento e superficialidade, desejos e impossibilidades.

Tensão morando em nós. Como a saudosa brincadeira do "cabo de guerra". Guerreando,

agora, em nossa alma. Vive-se, ao contrário do que se pensa, em paz, quem aceita e enxerga essas duplicidades humanas. Quem as vê como algo inerente ao espírito humano.

Isso é assim, adâmico, desde a história da origem humana na tradição judaica.

 

Vive em maior guerra aquele que, ao contrário, não aceita ser portador desta guerra interna.

Pois vive na ânsia inútil de não ser humano. De ser protótipo do que deveríamos ser. Originalmente. Vive escondido, encaramujado, obrigando a alma a ser eremita, todos os que – em nome de uma falsa religião, ou moralismo, ou legalismo neurotizante – buscam refletir uma imagem do que nunca foram. À semelhança de um malabarista de circo que, na busca de não deixar prato algum cair no chão, ocupa-se exclusivamente de fazê-los rodopiar num bastão, não tendo tempo de desfrutar de mais nada, nem mesmo de sua própria atividade. Assim vivem esses, pseudo-humanos, eternos mantenedores de uma imagem que nunca houve, mas que eles insistem em revelar.

 

Somos aquém do que gostaríamos. Vivemos com esperanças. Sonhos. Seremos e viveremos melhores quando, finalmente, desistirmos de ser deuses. E aceitarmos que, no máximo, somos semelhantes. Ele, apenas Ele, é. Nós existimos e sub-existimos e nos movemos  nEle….porque Ele, sim, é.  

 

Comentários em: "COERÊNCIA CONTRADITÓRIA" (1)

  1. Thereza Christina disse:

    Constatar a  minha fragilidade, que é inerente a toda humanidade, me conduz cada vez mais e sempre, aos braços do Pai Eterno

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