Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Luciano Oliveira

Professor de UFPE

E-mail: jlgo@hotlink.com.br

 

 

“Não! Não levaria Pipita para minha casa!” Com isso vou logo respondendo à conhecida provocação feita por figuras como Bareta em programas do tipo Tolerância Zero ─ uma dessas aberrações que vagueiam todos os dias pela televisão brasileira. Estarei sendo agressivo? Mas o que dizer de programas como esse em que terríveis dramas humanos são tratados na base da gozação com a participação de um pobre anão fantasiado de palhaço chamado “Torroio” ─ ou algo assim?

 

Não, não o levaria para casa. Pipita era um celerado, e tipos como ele metem medo em qualquer ser humano normal. Talvez São Francisco de Assis, ou Jesus Cristo, dele se apiedassem e lhe dessem abrigo. Eu não sou santo, e portanto não levaria Pipita para minha casa. Mas daí a exultar, a soltar fogos (simbólicos e reais) como fez a chamada sociedade sergipana com a notícia de sua execução, vai uma distância muito grande. Até porque uma questão nos interpela: como alguém se torna assaltante, estuprador e assassino com apenas 17 anos?

 

Calma, leitor! Não vou entoar a tradicional cantilena sobre as causas sociais do crime. Pipita não era inocente. Afinal, entre as determinações sociológicas e o ato criminoso, há sempre um terreno vago que não é atravessado sem o que ─ corretamente ou não ─ chamamos de liberdade. A prova é que nem todas as pessoas pobres delinqüem, da mesma maneira que nem todos os delitos são cometidos por pessoas pobres. Vejam o caso dos meninos de rua. Pela origem social, trata-se de seres submetidos às mais duras determinações. Mas se de um lado todo menino de rua é de origem pobre, de outro nem todo menino pobre se torna menino de rua! Entre o casebre miserável e a marquise onde se cheira cola e se aprende a assaltar, nada está decidido de antemão. O menino pode ser salvo por uma madrinha que o leva à igreja, ou pelo medo de levar uma surra do pai.

 

Mas não podemos esquecer ─ nunca! ─ que para estar submetido à tentação de ir perambular na cidade em vez de ir para a escola, é preciso pertencer a uma classe social onde essa “opção” se apresente. Se aos filhos da classe média sergipana ela não se põe, não é porque eles sejam melhores ou feitos de um barro diferente, mas porque seus pais os protegem dessa possibilidade obrigando-os a ir à escola, a comer nos horários certos, a fazer o dever de casa e a ir para a cama na hora de dormir.

 

Na falta disso, os devaneios mais loucos são possíveis. Com o que retomo a pergunta: como alguém ─ alguém que nasceu bebê como nossos filhos ─ se torna um Pipita aos 17 anos? Essa é uma idade em que ainda sonhamos. Quem joga futebol, sonha em ganhar uma copa do mundo. Para ver a maluquice de que somos capazes, basta dizer que um perna-de-pau como eu, que sublimava a timidez lendo livros, sonhava nessa idade que um dia ganharia o Prêmio Nobel de Literatura… Imaginem! Pipita, que certamente nunca leu um livro, com que sonhava? Provavelmente em ser um desses bandidos perigosos com um “três-oitão” na mão fazendo tudo o que a irresponsabilidade da idade autoriza: assaltar, estuprar, matar. Bastou um lar miserável desfeito, um pai na prisão, uma oportunidade… e o sonho se realizou! Só que era um pesadelo, e era real. E talvez ele só tenha se dado conta disso quando a primeira bala o atingiu.

 

Entretanto, as únicas referências que ouvi à pouca idade de Pipita foram para lamentar que, sendo menor, ele tivesse a impunidade assegurada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê para um caso como o seu, no máximo, internação pelo prazo três anos, a título de “medida sócio-educativa”. Como disse com certa dose de humor o dono da banca de jornal onde compro minha cervejinha, até os 18 anos eles são “anjos de luz”… E a óbvia conclusão: “tem é que mandar bala!” Ou, como estampou o Cinform com um franqueza chocante, despachá-lo para o “quinto dos infernos”. Não, Pipita não era nenhum anjo de luz, e o desfecho da sua miserável história dificilmente poderia ser outro. Daí a exultar com sua execução, vai uma grande distância, repito.

 

Tudo isso, vale lembrar, aconteceu numa Semana Santa, na madrugada da Sexta-Feira da Paixão para o Sábado de Aleluia, quando a única celebração possível para os que se dizem cristãos seria a da dor! E lembro minha avó, dizendo que quando uma alma ia para o céu, os anjos celebravam; e que quando ela ia para o inferno, o diabo é que ficava contente. Pipita não deve ter ido para o céu. Nesse caso, talvez os fogos saudando sua morte não tenham sido soltados por anjos…

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