Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

 

 

Meses atrás, uns dois talvez, uma garotinha foi “abraçada” por um macaco aranha, no Jardim Zoológico em Recife. Nesse “abraço”, foi bastante arranhada no rosto e no corpo. Principalmente porque no ímpeto de tirar o animal de cima da criança, este – que antes parecia estar brincando – ficou assustado e a todo custo tentou manter-se “agarrado” a criança com medo dos que tentavam a força tirá-lo dali.  Esse fato ganhou destaque nos jornais da cidade. Protestos contra a Escola que conduzia a criança. Protestos contra a administração do Zôo por não ter pessoas treinadas próximo à caravana de crianças. Enfim…ganhou imenso destaque na mídia.

 

Ontem, levei minha filhinha ao Zôo. Um passeio entre pai e filha. Ela sempre adora! Ela fez questão de ver cada ave, répteis, ficou frente a frente com um tubarão lixa num aquário, implorou para que corresse para ver o leão quando ouviu de longe seu urro. Lamentou não poder ver o urso pois encontrava-se na casinha dele. Pediu-me para ver as cobras novamente, principalmente a píton albina. Saindo do Zôo, num clima já de despedida… passeando na calçada ao lado do rio… ela finalmente pediu para vir para meus braços (eu já falei que ela tem apenas 03 aninhos?). Eu a peguei no braço e, sutilmente, perguntei: “cansada não é minha filha?” (perguntei na verdade como projeção ao que eu sentia. Eu estava morto!). Ela, de pronto, respondeu: “Não, Painho. Tô com medo!”. “Medo? De que minha filha?”, respondi. “Do macaco aranha, Painho! Ele fica ali ó… (e apontou para uma ilhazinha, no meio do rio…)”. A isso, espantado, disse a ela : “Minha filha…o macaquinho é bonzinho…gosta de brincar…pular…é bonzinho…não precisa ter medo…”. Ela, com firmeza de quem está convicta do que vai falar me repreendeu dizendo: “Não, painho! Ele é brabo. Mau. Arranhou a menina todinha. Agarrou ela e arranhou ela todinha.” E concluiu olhando para mim: “Você não viu na televisão não, foi?”.

 

Após isso, inutilmente tentei persuadi-la,  tentando ser advogado do macaquinho…mas sem sucesso. A primeira coisa que disse em casa a mãe foi: “Papai disse que macaco aranha é bonzinho…e ele nem é…não é mamãe? Ele arranhou a menina não foi? Passou na televisão…diga a Painho, mamãe”.

 

Fiquei pensativo sobre isso. E aqui escrevo como quem na verdade quer registrar isso para que eu mesmo não esqueça dos ensinos possíveis. Não pretendo ser cansativo. Na verdade, não tenho sequer a pretensão de que leitores gostem desse texto. Não tanto quanto o objetivo principal meu: não esquecer-me daquele dia. Digo isso, porque comecei a pensar em como deixamos nossos filhos por horas na frente da TV, ao invés de nos ocuparmos com elas. E as educarmos. Trocamos nossas antigas babás (“pedagogas”) pela TV e DVD’s. Eu faço isso! Agora mesmo enquanto escrevo esse texto…lancei antes no DVD o que ela quis (“Taz e sua turminha”). Isso me garante uma hora de concentração! Assim fazemos. Assim faço! Diariamente. Pior de tudo é ver (como ontem) que o que elas guardam da Televisão consegue ser mais forte do que a palavra de Painho, muitas vezes. Ou seja, a TV, aos poucos, vai ganhando autoridade dogmática para elas. E as entregamos a isso. Não quero aqui demonizar nada. Estou longe dessa turma que faz isso…que demoniza tudo e vê o mal em tudo (Harry Potter, Hello Kit, Disney e etc). Não acho que tudo é inocente. Mas também não saio por aí tentando decifrar demônio em tudo. Até porque o que quero chamar a atenção aqui não é para mensagens ocultas e difíceis de serem discernidas. Falo aqui das desvirtuações da verdade, que são vistas de forma clara, escancarada. Falo disso! Falo do poder que tem a TV em formar a mente das crianças (sejam crianças cronológicas ou mentais). Falo dos jornais ideologicamente inclinados a fim de usurpar das pessoas a consciência e a verdade. Falo dos jornalismos intencionalmente irreais. Falo do perigo de expormos nossa mente, a mente de nossos filhos também, a uma enxurrada de inverdades a ponto daquilo se tornar verdade absoluta (onde nega-se inclusive o ensino primário dos pais em favor do que foi dito na TV).

 

Falo de termos mais cuidado com o que se ingere diariamente em nossa mente. Falo de voltar a comprar livros nas férias para nossas crianças (Tipo “Para gostar de ler”…que eu lia muito em minha pré-adolescência). Falo de tomarmos consciência de acompanhar nossos filhos sobre aquilo que elas vêem. Falo de nós mesmos exercitarmos nossa mente pois se os pais não “treinam” a mente diariamente para que se tenha uma visão crítica onde filtre-se o que se recebe, como iremos ensinar isso aos filhos. Será apenas reprodução de mediocridade e de metodologia de como se deve crer em tudo o que se ouve e vê, sem critérios.

 

Aquela frase de minha filha me fez pensar…

 

Lembrei, com isso, de tantas inverdades ditas na TV com intenções nas entrelinhas: a criminalização dos movimentos sociais (por isso mostram-se os movimentos como baderneiros, vagabundos e violentos – como fazem com o MST); a legitimidade da guerra contra políticos progressistas na América Latina (por isso a imagem negativa sobre Evo Morales e Hugo Chávez, como exemplos. Mesmo acreditando que existem sérios erros nas atitudes deles); a legitimação da promiscuidade e da falta de pudores (por isso as novelas tão regadas a traições, vinganças, violência até que se vejam os males como coisas relativas). Enfim…seriam tantas coisas e tantos exemplos…

 

Por fim, minha filha me fez pensar…refletir…e reagir… quero que a reflexão que ela me trouxe acabe por me ensinar que preciso crescer muito ainda se quero vê-la crescer. Se quero ser coerente com uma oração que sempre faço a Deus por minha filha: “Não deixe que eu seja atrapalho a tudo aquilo que Senhor deseja fazer por minha filha e através dela. Protege-a de mim”.

 

Voltei para casa…antes parei e comprei três livrinhos para ela… orando para que não tenha sido uma reação emotiva…mas aprendida.

 

 

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