Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

 

Em minha adolescência namorei com uma jovem muito distraída. Certo dia, por volta das 17h, ela acordou de seu “cochilo” da tarde. Era um entardecer bonito, segundo ela. Com um céu avermelhado, sol se pondo, céu límpido. Ela acordou mas, como de costume em algumas pessoas, esteve por alguns minutos naquele estado de torpor, de inércia, meio acordada e meio dormindo. É um  estado em que há ausência de resposta a qualquer estímulo. (Recomendo inclusive que não se dê recado algum a uma pessoa nesse estado. Pois ela balançará a cabeça afirmativamente, confirmando que entendeu seu recado para, logo depois, ligar para você reclamando que você não disse nada a ela sobre aquele assunto. Como se recado algum você tivesse dito a ela. Com minha esposa, a tempos evito falar algo importante até que tenha tido certeza de que acordou “de verdade”. Mas…é apenas um conselho…aprendido após levar algumas “broncas” inocentemente)…bem…voltando a história…aquela jovem acordou dessa forma naquela tarde. Espreguiçou-se… lutou para não fechar os olhos por uns dez minutos…até que resolveu olhar o relógio: 05:15. De súbito pulou da cama. Assustada. Por ver que estava 15 minutos atrasada. Correu, tomou um rápido banho, trocou de roupa, vestiu sua roupa, correu para a cozinha, fez um café e um sanduíche, despediu-se de sua mãe e padrasto com um beijo em cada um, explicando que estava indo a escola. Então, caminhou rápido para a parada de ônibus pois este, como de costume, passava às 05:45.

 

Até então…em nenhum momento…desconfiou que era a tarde e não a manhã daquele dia.  

 

Chegou na parada, conferiu o relógio. Estava no tempo certo! Só então, resolveu olhar mais atentamente para o céu. Viu que este, ao invés de clarear – como todos os dias – estava escurecendo. Achou estranho. E não estava nublado nem demonstrando vir chuva. Muito encabulada…virou-se para o homem do seu lado e perguntou: “Que dia é hoje?”. Com a resposta dele, ela deu uma forte risada…agradeceu ao homem (que não entendeu absolutamente nada do que estava acontecendo) e voltou pra casa. Entrou em casa rindo ainda…contou aos pais..que também começaram a rir confessando que estranharam ela ir a Escola naquela tarde mas que pensaram tratar-se de alguma aula extra ou prova. E assim ela voltou para seu quarto – rindo de sua própria demência – para então colocar sua roupa de casa…

 

Hoje, mais de quinze anos depois, essa história veio a minha mente. Lembrando-me de que ela é repetida muitas vezes… de formas diferentes.

 

Tanta coisa na vida faz-nos agir impulsivamente. Não só impulsivamente, mas equivocadamente. Em nossa mente, cremos firmemente que estamos corretos. Que caminhamos e agimos seguindo convicções tão firmes. Como diz uma canção: “Cada estrada em que eu andei, eu pensei daria certo…”. Tantas são as vezes que perplexo ficamos ao vermos que defendíamos ardentemente posições e convicções que depois se mostraram completamente erradas. O apóstolo Paulo é um bom exemplo: pregou, defendeu, até matou pessoas por aquilo em que cria. Um dia, depara-se com a Verdade e esta diz a ele que tudo aquilo que ele fazia, crendo ele ser de/para Deus, quando era justamente o oposto. Literalmente ele cai no chão. Diante da “claridade” da Verdade. Ficou cego três dias. Sem comer e sem beber. Ruminando pensamentos. Mastigando reflexões acerca de qual seria a Verdade daqui em diante. No escuro físico a fim de que sua mente fosse iluminada. Dali em diante sai pregando e divulgando suas novas convicções. Por ironia, essas novas eram justamente aquelas que ele mais combatia e se opunha violentamente.

 

Tal qual minha amiga, acordando a tarde imaginando ser cedo da manhã… tantas são as vezes em que minha mente vagueia  e me pergunto: “como pude crer naquelas coisas em que cria? Como pude defender aquelas coisas? Como? Como não vi antes? Minha mente deveria estar num estado de torpor, de imobilização.

 

Muitas vezes só a maturidade nos ensina. Em outras o sofrimento – quando pedagógico – é nosso professor. Em outras ainda, o tempo, os estudos. Deixamos então de crer nas fábulas que nos contavam quando adolescentes. Deixamos de crer naquilo que apenas existe em teoria. Deixamos de crer naquelas instituições que tanto prometem mas não demonstram. E passamos a crer – agora mais humildemente pois não sabemos se dessa vez em definitivo – em outras verdades, ganhamos novos valores, muito do que se valorizava perde em nós o valor e, por outro lado, muita coisa que era desprezada ganha novo valor e cuidados.

 

Essa historinha da minha amiga precisa me ensinar ao menos duas coisas: misericórdia e humildade. Misericórdia ao me deparar com tanta gente que hiper-valoriza coisas e instituições que hoje – após viver e enxerga-las nas entranhas (pois a vitrine sempre é muito bonita. O desafio é continuar sendo bonita nos bastidores) e me decepcionar profundamente – já não valorizo e já não me atrai. Preciso amar essas pessoas. Elas são sinceras em seu equívoco. Como eu também era extremamente sincero. Elas agem sinceramente erradas, mas inocentes pois fazem crendo. Misericórdia. Preciso aprender isso. A amar os que acordam a tarde, pensando ser manhã… arrumam-se, tomam banho e se dirigem pensando ainda que é manhã. São sinceras. Estão com mente obscurecida. Enganada. Coisa própria do ser humano. E preciso aprender também a humildade… por lembrar que já fui assim. Que já defendi idéias, pessoas, instituições religiosas achando ser aquele o caminho correto. Já me dediquei além do que podia a coisas e pessoas que por fim se mostraram mentirosas, falsas, ilusórias e pequenas. E quão chocante é quando nos deparamos com as verdades (tal qual minha amiga dando-se conta de que na verdade era o entardecer daquele dia). Humildade por saber que tudo o que creio hoje pode ser revisto, reformado, melhorado, corrigido. Somos incompletos sempre. Esse era o espírito da Reforma Protestante (reformada, sempre reformando).

 

Por fim, aprendo que muitas vezes precisamos de pessoas que nos ajudem a ver: “moço, que dia é hoje?”, perguntou minha amiga. E saiu pasma com a descoberta. E rindo. Precisamos de humildade para entender que muito do que se descobriu, veio por outros. Na verdade, quase tudo. Por meio dos pais, professores, mentores, livros. Se incluirmos Deus na lista, teremos que dizer que tudo vêm dEle. E assim nos colocamos como receptores de tudo aquilo que passamos a crer e entender em nossa vida.

 

Hoje, meu desejo, são dois: rir daquilo que já fui sinceramente enganado. Rir daquelas coisas que fiz, que defendi, que me dediquei porque era próprio de minha idade e de minha evolução intelectual. Rir não por zombaria. Mas, por bom humor. Por entender que todos temos uma história, um processo, uma caminhada. Nesta, vamos gradualmente amadurecendo. Meu segundo desejo: que muitas outras surpresas eu ainda tenha. E que de preferência eu descubra ainda entardecendo. Sem ainda ser noite. Para que ainda eu consiga ter tempo de voltar para casa, trocar minha roupa para refazer tudo. Que em cada engano descoberto, em novas verdades, eu tenha humildade e tempo de retorno. Aliás, aqui termino dizendo que em Deus pra tudo há retorno. Tudo! Mesmo que o dia já esteja entardecendo. Pois as misericórdias dEle renovam-se a cada dia.

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