Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias Ferreira

 

Hipócrita é uma palavra grega que significava “aquele que representa”. Ou seja, utilizada para quem era ator. Para alguém que representava um papel irreal num palco. Hoje, com outro uso, refere-se àqueles que, no cotidiano, comportam-se de forma irreal, diferente do que são realmente. Àqueles que, de forma incoerente, externam aquilo que não são internamente. É quando há dissociação entre o interior e o exterior. Quando agimos coreograficamente. Quando reagimos em contrariedade ao coração.

Já fiz muito isso. Muito! Já apertei a mão quando tive vontade de xingar. Já elogiei quando tive vontade de humilhar. Já me humilhei quando interiormente sentia orgulho. Já demonstrei piedade sem que o coração sentisse nenhuma ponta de compaixão.  Já abracei com vontade de manter-me distante. Já sorri tendo a alma vazia e em prantos.  Já me vesti bem sentindo-me desnudo. Já aparentei felicidade sentindo-me oco. Já fechei os olhos demonstrando emoção quando na verdade – em conversa comigo – desejava ir embora daquele lugar. Já beijei sem sentimento.

Enfim, já ornamentei tantas vezes meus comportamentos com o fim de que, ao ser observado, transmitisse aquilo que eu gostaria de ter. Ciente, porém, da ausência daquelas virtudes em minha vida.

 

O tempo passa. A idade – junto com as tempestades da vida – vão transformando nossos valores. Gradualmente começamos a perceber que o palco vai perdendo valor para os bastidores. Nos notamos diferentes. Começamos a valorizar mais a copeira, a faxineira do que os artistas principais. Pois começamos a enxergar o quão patológico é viver-se sempre num palco. Preocupado e tenso com os aplausos. Ansioso quando estes não vêm. Felizes apenas quando se ouve o barulho das palmas. Pois começamos a enxergar a solidão do palco. Nele não há espaço para a informalidade pois tudo foi ensaiado. Nele não há estímulo a uma vida particular pois tudo é exposto. Nele não há liberdade para se errar, pois as vaias virão. Nele não há tempo de se olhar pra si mesmo, pra dentro. Para a alma. Pois tudo é feito com a preocupação de agradar o público.

 

Quanta gente vive assim. Neurótica. Com a mesma eterna preocupação interior: “o que vão pensar e falar de mim”. É o peso sufocante da opinião alheia.

 

A libertação vem quando descobrimos quem somos. Quando nos percebemos como pessoas inacabadas e por isso mesmo em constantes mudanças. Quando percebemos que nem Deus nos cobra que sejamos moralmente perfeitos de forma imediata. Ao contrário, Ele nos ensina que isso será feito ao longo da vida…dia a dia. Tal qual um nascer do sol, na aurora do dia. Vagarosamente vai crescendo, um pouquinho de cada vez. Até ser dia completamente. Quando entendemos isso, então nos libertamos! Não para o comodismo. Mas para entendermos que o processo de “construção e acabamentos” será realizado em toda a vida. Diante disso, caem as máscaras. Desfaz-se a necessidade de se representar. Não é mais necessário demonstrarmos quem não somos. Nos rendemos a nós mesmos. A vida se torna mais leve. O humor é melhorado por sabermos que sempre – em toda a vida – haverá o que se aperfeiçoar. O moralismo dá lugar à sensibilidade. O legalismo dá lugar ao respeito pelo que o outro já alcançou. Os julgamentos dão lugar à misericórdia por perceber o que o outro ainda não alcançou. O dedo em riste, apontando os defeitos do outro, dão lugar às mãos unidas, em oração, por notar nossas próprias limitações e fraquezas. Meu desejo permanente: que eu perceba que o processo é longo; que eu deseje sempre caminhar por ele; que eu entenda que pode-se caminhar por ele levemente – de bom humor – aproveitando-se o caminho pois que não estamos sós. É um caminho coletivo. Com Deus.

 

 

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