Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias Ferreira

 

Eram pouco mais de seis horas da manhã do dia 09 de fevereiro de 2005. Eu fui chamado no quarto por minha esposa. Ela, com rosto expressando dor, avisou-me que as contrações haviam chegado. Ligamos para a médica. Ela aconselhou que aguardasse até ao meio dia e só então ligasse novamente para, confirmando-se as contrações, proceder à cirurgia do parto.

 

Nós não obedecemos à médica. Às 08 horas da manhã já estávamos no hospital. Pensamos: “se vamos esperar, esperaremos já no hospital”. A pediatra de plantão fez o primeiro exame em minha esposa às 08 horas. A pedido nosso. Ela, após o exame, olhou espantada para nós dois e nos alertou: “Ligue imediatamente para sua médica. O parto precisa ser realizado rapidamente. Já há presença de muito mecônio (substância semelhante a fezes expelida pelo bebê quando diante de algum sofrimento. O que faz com que ele fique literalmente “mergulhado” nessa substância dentro da placenta absorvendo-o). A médica, então, contactou toda a equipe médica. Mas esta só chegou ao hospital ao meio dia pois, por ser quarta-feira de cinzas, muitos estavam viajando. Às 13 horas a cirurgia foi iniciada. Pude assisti-la por ter estudado odontologia (segundo a médica, apenas pessoas ligadas à área de saúde tinham permissão. Muitos pais atrapalhavam a cirurgia com desmaios e etc). Tudo corria muito calmo. Mais calmo do que eu imaginava. Rouse, tranqüila, encostava a cabeça em minha barriga. Eu apenas acariciava a cabeça dela e a tranquilizava. Toda a preparação foi feita. Os cortes já haviam sido feitos. A pediatra já estava a postos para receber a criança. A gestação havia sido perfeita. Sem nenhuma anormalidade. Tudo indicava que seria extremamente tranquilo. A não ser pela presença de mecônio….

 

Finalmente minha filhinha estava saindo. Sendo tirada pela cabeça. Metade do corpinho dela já estava de fora. Foi quando a médica, estupefata, olhou pra mim com olhos arregalados. Tensos. De imensa surpresa. O bebê estava todo “preto-azulado”, língua de fora , olhos arregalados e imóveis. Os bracinhos caíram ao lado do corpo, como mortos. A médica me olhou, como quem diz: “o que o pai vai fazer agora?”. Da forma em que eu estava entendí tudo: “Minha filha morreu”. Apenas gesticulei para a médica com as mãos como quem diz: “continue, pode continuar. Está tudo bem.”. A criança foi trazida para uma mesa ao meu lado. Um pouco acima da cabeça de Rouse para que ela não enxergasse, apenas eu. Ali, sem vida, ela foi limpa. Um tubo foi colocado nela a fim de retirar todo o mecônio de dentro dela. Uma substância marrom escuro começou a sair por esse tubo de forma constante, por minutos. E a minha criança continuava da mesma forma, imóvel e com aqueles olhos fixos, abertos, bonitos mas sem vida.

 

Rouse perguntou-me: “por que ela não chora?”. Apenas dizia a ela: “Ela está bem. Ela está bem. Relaxe, está acabando.”.

 

A sala de cirurgia, a esta altura, estava completamente em silêncio. Apenas se ouvia os sons metálicos dos instrumentos cirúrgicos sendo colocados na mesa. Ninguém ousava falar nada. A médica não me olhava. Olhos fixos na cirurgia. Tristes.

 

Repentinamente, para surpresa de todos, ouviu-se (e apenas ouviu-se devido ao silêncio da sala) um leve gemido. Muito baixo. A pediatra, que cuidava do bebê, de súbito deu um grito para a equipe pedindo um tubo mais largo. O tubo anterior foi retirado e um tubo grosso foi colocado. Eu via o pescoço de minha filha mexer, enquanto o tubo entrava nela. Aquele líquido jorrava agora num volume muito maior de dentro dela. Um aparelho respiratório foi colocado nela. Toda a equipe médica voltou-se para o bebê. Finalmente ela foi desentubada. E um choro – fino, ainda baixinho – encheu a sala cirúrgica. Ela foi colocada no peito de Rouse. Apenas por uns segundos pois a pediatra disse que ela precisava ser levada de imediato para a UTI.

 

Nesse momento o clima da sala era outro. Risadas. Conversas paralelas. Todos falavam. A médica, finalmente, olhou para mim de novo. Fitou meus olhos enquanto continuava a costurar Rouse. E disse: “Deus quer essa criança viva! Deus quer essa criança viva! Só pode ser isso…”.

 

Após todo o processo concluído. Deborah na UTI. Rouse de volta ao quarto onde os familiares estavam. A médica veio conversar conosco e nos contou todo o processo que Deborah enfrentou (e que enfrentaria nos próximos 11 dias na UTI e nos próximos três meses em casa). Por fim ela nos disse que de cada 10 crianças que enfrenta o que ela enfrentou, apenas uma sobrevive ao parto e ao pós-parto.

 

Encurtando toda essa história pois teria muito ainda a escrever – todas aquelas 11 intermináveis noites que tivemos que enfrentar o sentimento inexplicável de irmos embora para casa deixando nossa filha na UTI (com a médica nos alertando todas as noites quanto a possibilidade dela não reagir e morrer); os três meses em casa que ela enfrentou diversos sufocamentos devido ao tempo em que ficou entubada na UTI e diversos outros traumas – por fim tudo passou. Escrevo agora com minha Deborah, nesse exato momento, passando final de semana na casa dos avós, com quase 04 anos de idade. Perfeita. Linda.

 

Mas, uma frase ainda ressoa em minha mente: “Deus quer essa menina viva”. Converso com minha esposa sobre essa frase e somos unânimes em reconhecer que parte dessa frase hoje entendo. Que parte da razão de Deus querê-la viva eu já entendo. Eu e minha esposa enfrentamos uma crise conjugal terrível após um ano do nascimento de Deborah. E nos separamos. Após mais de um ano e meio separados, estamos novamente juntos. E muito bem juntos. E vemos claramente o quanto Deborah foi essencial em nos manter ligados. Ela salvou nossa família. Ela, sem saber, foi o elo que não deixou que uma família se esfacelasse.

 

Mas, ainda há mais. Somos unânimes também em concordar que ainda há mais por explicar a razão de Deus querer nossa Deborah viva. Tenho certeza que no futuro – talvez um futuro longínquo – eu vou olhar para trás e vou me lembrar do que aquela médica disse. Vou olhar para trás – vendo no que Deborah se tornou – e vou dizer, junto da minha esposa, “hoje estou entendendo porque Deus queria minha filha viva”. Não tenho a mínima idéia do que seja. Da razão de sua manutenção. Mas, sempre cri que todos nascem para algo dentro de um projeto maior de Deus. E Deborah está inserida nisto.

 

Minha oração e desejo: que eu nunca atrapalhe essa caminhada que é só dela. Que eu, por ser pai, não perca de vista que ela tem um caminho diverso do meu. Que eu, por ser pai, não queira realizar meus sonhos através da vida dela. Que eu, por ser pai, não queira dominá-la a ponto de interferir no processo natural da vida dela desde o nascimento. Que eu seja apenas pai. Para que o Pai a guie. Que eu seja amigo. Que eu seja disciplinador a fim de que ela se discipline. Mas, que eu não seja dono dela. Que eu entenda que ela tem um vôo próprio, apenas dela, para que eu entenda um dia a razão do porque de Deus querer minha Deborah viva.

Comentários em: "DEUS QUER ESSA CRIANÇA VIVA." (12)

  1. Roosevelt™ disse:

    As lágrimas que deslizam sobre meu rosto agora são testemunhas do imenso conforto e alegria que essas suas ou Suas palavras me trouxeram. Deus seja louvado pela vida de vocês, meu amigo!

  2. _ Roberta Rodrigues disse:

    A Deus, toda honra e toda glória…que Deus continue abençoando vocês.

  3. Poli disse:

    Tales, sua família, mesmo que sendo um pouco recente, já tem histórias lindas pra contar!Histórias que devem ser exemplo para outras pessoas, outras famílias….Beijos pra você, Rouse e Debinhah.Com carinho, Poli.

  4. DANIELE disse:

    eita q faltou coragem pra te escrever algo, mas depois de ler essa mensagem, Deus me falou bastante…tô muito feliz em ver você bem com Rouse e sei que Deus tem grandes feitos a fazer através de vcs com toda certeza, lembrei de tanta coisa q passamos juntos no dia do casamento de wagner, vc sorrindo como se nunca tivéssemos nos afastados, por instantes achei que nunca saímos de perto uns dos outros, vc fez muita parte em minha vida e nada me fará esquecer, nada mesmo!!!! Deus continue te abençoando… Um grande abraço Daniele Felix da Silva. (dani vieira)

  5. Augusto disse:

    Tales,"Deus quer essa criança viva" vai além da sua familia, além do que Deus guarda para vocês,(como familia).Débora sem falar nada, sem fazer nada já serviu para o nosso chamado, mostrar o Deus Vivo, afimar sua existencia quando todos insistem em negar, Débora calada confirmou que o sacrificio da cruz não foi em vão. Mostrou que o Entregar O FILHO por muitos que não mereceram, não foi em vão.Débora começou sua vida mostrando para o que veio. Deus ainda será muito glorificado através dessa vida e de sua familia.E sinto-me MUITO feliz por fazer parte dessa história, fazer parte dessas vidas. Deus tem provado o seu Amor por mim todas as manhãs no nascer do sol e colocando vcs em minha vida."Deus quer essa menina viva" AMÉM

  6. Leandro disse:

    Tales, Para conseguir a amizade de uma pessoa digna como você, é preciso desenvolvermos em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos. Você é literalmente como um pai pra mim, espero que eu possa aprender muito mais do que vc me ensinou, não é atoa que vou sempre lhe admirar com um grande homem, que sabe colocar as palavras certas nas horas certas, como ninguém, esses textos, esses exemplos de vida, álém de nos deixar emocionados, também faz acordar e saber enfrentar com bastante maturidades as dificuldades que a vida nos proporcionam, Tales agradeço todos os dia a Deus por sua vida e da tua familia, apesar da distância, quero que saibas que vc estar dentro mais bem lá dentro do meu coração. um grande abraço. Léo seu eterno discípulo.

  7. Tona disse:

    Deus tem seus proposito,no momento a gente não entende,hoje vocês sabem e com certeza Ele tem preparado outros propositos prá vocês,através da vida de Débora,Deus continue abençoando você Tales e toda sua familia.

  8. Adriana Santos disse:

    Na época eu sabia que Rouse tinha tido complicações no parto, mas não sabia que tinha acontecido tudo isso que você relatou. Que bom que já passou e estão bem agora. Deus continue abençoando a essa família.

  9. cleide disse:

    A Deus toda honrra e toda Glória,parabéns para Debora,Deus é fiel e as orações de sua mãe e todos os que orou por vcs dois chegou aos céus e Deus respondeu a todas,a oração de um justo podem muito em seus efeitos,amém,amo vcs

  10. Kesia Feitosa disse:

    Não sabia desse sufoco que vocês passaram. Deus tem planos para nossa vida e muitas vezes quando algo acontece não entendemos naquele exato momento, mas a experiência fica gravado em nossa memoria. E com o passar do tempo Deus nos revela seu plano para nós, e quando isso acontece, dá uma alegria tão grande, um desejo de agradecer e agradece a Deus o que Ele fez por nós. Fico feliz pela sua família, que Deus te abençoe, te dê sabedoria. Abraço pra você e para Rouse.

  11. Verônica disse:

    Chorei muito lendo tudo isso. Deus tem um proposito na vida de cada um ser, mais sem dúvida, deduzimos que na vida de sua filha, existe um proposito maior e ela já está trabalho nisso aos olhos do pai. Deus aencoe essa familia. Abs

  12. Karla disse:

    Lindo testemunho de vida Tales.
    Deus tem um plano lindo na vida da Débora, ela foi escolhida desde do ventre.
    Que Deus seja o centro dessa familia, SEMPRE

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