Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias
 

Certa vez ouvi um preletor a quem muito estimo afirmar que “toda humilhação vem de Deus”. De imediato aquela frase me causou estranheza. E discordei dela. Pensei comigo nas diversas injustiças vistas diariamente por causa de tantas desigualdades sociais. Lembrei-me dos pobres, daqueles que enfrentam horas a fim de serem atendidos nos hospitais públicos. Daqueles que não possuem condições de pagar um advogado diante de injustiças sofridas. E tantas humilhações que os excluídos são obrigados a enfrentar e que não parecem, de forma alguma, coadunar-se com a vontade e desejo de Deus. Deus nunca nos ensinou a tratarmos os outros de forma diferente. Deus nunca nos mandou “criar” um mundo e um sistema com tamanhas desigualdades e injustiças. Deus nunca nos ensinou isso… isso é coisa nossa. Fruto do homem. Conseqüência de nós mesmos. Contra nós mesmos.

 

Mas, por outro lado… anos depois…aquela frase ainda soa em meus ouvidos…será que a humilhação vem de Deus? Não seria mais correto afirmar-se que Deus, por ser onipotente, utiliza toda forma de humilhação para nos ensinar a sermos gente? Será que não seria mais fácil afirmarmos que Deus, sendo como é preocupado na formação de uma humanidade mais parecida com aquela que ele idealizou, quer nos ensinar que é possível e digno vivermos aprendendo a humildade e amor?

 

Pois não é possível negar o quão pedagógico é passarmos algumas humilhações, sofrimentos, angústias e momentos de choro. Não há nada que nos ensine mais na vida do que momentos assim. Não há melhor professor do que momentos onde as lágrimas se tornam nossa bebida (como diz o salmista). São nesses momentos que somos transformados. Que somos confrontados com nossa pequenez e limitações. Que somos confrontados com nossas inadequações e incoerências. Que nos enxergamos iguais aos outros. Que nossas máscaras e escudos caem e nos sentimos indefesos e desnudos. Onde precisamos mostrar quem de fato somos. São nas humilhações que aprendemos a chorar. A pedir ajuda. A não sermos tão independentes de Deus e dos outros. São nas humilhações que nossa imagem externa é esquecida, posta de lado, importando apenas aquilo que sabemos que somos. Não mais aquilo que demonstramos ser.

 

Olhando-se a partir dessa ótica, chego a quase concordar com aquele preletor. Não acho que “Toda humilhação vem de Deus” mas sim que “Deus está presente em todas as humilhações”. Usando-a para nos tornar pessoas melhores. Usando-a para nos ensinar a perdoar. Sim! Porque após sofrermos humilhação e desonra nos vemos iguais aos outros. Nos enxergamos como potencialmente capazes de fazer e sofrer o que todos fazem e sofrem. Dessa forma, como iguais, nos tornamos mais humildes para entender o outro. E distribuir perdão e compreensão.

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