Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

 

Me intriga a forma como estamos presos e escravizados à forma de vida legalista. É tão sutil e ao mesmo tempo tão forte nossa prisão que não nos percebemos aprisionados.

Tal como relatou o Rubem Alves, somos como pássaros que, por termos vivido tanto tempo engaiolados, não adianta vermos as portas abertas. Nós teimamos em nos sentir mais seguros dentro da gaiola do que o risco de voarmos livres. Nós tememos a liberdade. Nos mantemos na gaiola mesmo sabendo que as portas estão abertas. Nós continuamos presos emocionalmente. Nos surpreendemos o quanto estamos acostumados com a falta de liberdade que essa prisão nos atrai. Ela transmite segurança, abrigo, proteção, senso de organização.

 

Vejo isso o tempo todo. Até em mim. São sinais que, se não nos avaliarmos, serão imperceptíveis. Quer exemplos?

 

– Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, entregávamos o dízimo devido a toda a pressão psicológica a que éramos submetidos. Seríamos chamados de ladrão caso não entregássemos os dízimos. Seríamos tidos como infiéis. Como usurpadores, sempre baseados no livro do profeta Malaquias. Hoje, após nos libertarmos dessa visão judaica e, por isso, legalista, indo para o ensino cristão dos dízimos e ofertas, onde ofertamos “segundo determina o nosso coração” e não tendo valor fixo, porcentagem fixa de tudo quanto ganhamos. Hoje, entendendo que não há uma parte “do Senhor” em nossa receita mas cônscios de que tudo é dEle, o impacto disso em nossa vida deveria ser o transbordamento da generosidade (tal como houve com os coríntios). Mas, não é. O impacto disso, é o encolhimento das ofertas. De modo geral, doamos menos que os 10% que doávamos quando sob o regime da lei. Isso é incoerente. Nosso coração deveria sentir-se livre e, por isso, gratos e generosos. Mas, nos encolhemos. Nos enxergamos mais egoístas. Menos doadores. Menos parecidos com a velhinha da parábola, que doou tudo quanto tinha. Menos parecidos com Zaqueu após o encontro com Jesus que devolveu tudo o que havia roubado do povo, quatro vezes mais. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça, nos tornamos mais avarentos. Foi realmente a mensagem da Graça que escutamos?

 

 

– Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, estávamos presentes semanalmente nos templos (às vezes, diversos dias por semana). Por causa dessa nossa atitude, éramos chamados de “cristãos comprometidos”. Mesmo que essa nossa freqüência sacrificasse nosso tempo em família, nossos estudos, nossa missão de atuar no mundo e não nos templos, etc. Ao contrário disso, éramos tidos como pessoas descomprometidas se não estivéssemos tão presentes nos templos. Hoje, após nos libertarmos dessa visão judaica que centralizava a vida da igreja nos templos o correto seria nos vermos com prazer e disponibilidade para desfrutarmos de momentos nas casas, nos restaurantes, nas praias e em todos os possíveis lugares onde os cristãos pudessem se encontrar para desfrutar de comunhão e, ao mesmo tempo, de atuar em missão. Mas, tristemente, o que vemos é a restrição cada vez maior para estarmos juntos.O que vemos é a eleição de nossos projetos particulares como prioridades quase únicas em nossas vidas. A coletividade perde importância. Torna-se “programa” para quando não estivermos ocupados com nossas tarefas domésticas, com nossos cursos pessoais, com nossos passeios individuais. Se não houver shopping, feira, aula de inglês, carro a ser levado à oficina, trabalhos da faculdade, cansaço ou qualquer outro programa pessoal. Com isso, o senso de igreja, de Corpo, de vida em comunidade vai perdendo-se. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça, nos tornamos mais individualistas. Foi a mensagem da Graça que realmente escutamos?

 

– Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, havia um policiamento constante quanto a nossas atitudes em busca de uma perfeição moral. Vivíamos neuroticamente preocupados em não errarmos, em não pecarmos. Achávamos que haveria condições de sermos pessoas moralmente quase perfeitas. E, para isso, elegíamos quais eram os pecados mais graves. Fugíamos de cair nesses (ou escondíamos eles para que ninguém soubesse) e, caíamos apenas naqueles que elegíamos como pecados “leves”, banais. Assim, nos sentíamos melhores, superiores àquelas pessoas que haviam caído nos pecados “graves”. E, dessa forma, nos sentíamos dignos de atuar em algum ministério da igreja. Não precisaríamos passar por “disciplina”. Estávamos mais limpos que os demais. Hoje, após entendermos que a santificação é operada por obra do Espírito em nossas vidas e não por esforço próprio. Que a nós cabe apenas o querer ser moldado dia a dia e buscarmos a voz de Deus por uma vida de oração (entendendo oração como relacionamento, comunicação constante com Deus e não preces e rezas lançadas ao céu) e busca de entendimento da revelação de Deus em sua Palavra. Hoje, entendendo isso, mesmo assim nos flagramos, lá no íntimo, com atitudes críticas e de julgamento perante a pessoas que erram. Críticos e com julgamento diante de notícias de pessoas que caíram em determinado pecado. Pior do que isso… após nos libertarmos da pressão das leis para o aperfeiçoamento pessoal entendendo que isso se deve a uma ação do Espírito, nos enxergamos com uma frouxidão moral beirando a libertinagem. Deixamos de perceber que Deus, de fato, deseja que tenhamos um comportamento que se coadune com sua mensagem de sermos uma nova humanidade. Apenas passamos a entender que o caminho que nos leva a isso não é através de regras e determinações mas pela ação do Espírito e que não há ninguém que possa estar moralmente acima dos outros pois todos são igualmente pequenos e injustos diante de Deus. Apenas isso. Mas o alvo deveria ser mantido: buscarmos uma vida que se assemelhe a de Jesus. Por qual via? Pela ação de seu Espírito em nós. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça nos tornamos mais “frouxos” moralmente. Foi a mensagem da Graça transformadora que escutamos?

 

Eu poderia citar tantos outros exemplos… onde está nossa atuação social pelos mais fracos e excluídos após termos entendido a mensagem da Graça que nos ensina que o Homem deveria ser salvo em todas as suas dimensões incluindo a dimensão física? Que a salvação – como projeto de restauração da criação – inclui restauração de tudo aquilo que o pecado destruiu como a natureza e nossa humanidade. Que deveríamos ser atuantes na busca da justiça social, na denúncia dos males sociais (tal como os profetas), na preservação da natureza, na conversão de pessoas bem como na defesa dos valores do Reino na sociedade. O que estamos fazendo após termos entendido isso?

 

Meu sentimento é de que ou não entendemos a mensagem da Graça de Deus e do evangelho de Deus tal como ele. Plenamente. Ou, pior que isso, entendemos mas isso não causou impacto profundo em nossas vidas. Houve apenas entendimento intelectual. Não houve encarnação dessas verdades. Não falo como um pregador. Falo como confissão. Incluo minha vida a tudo isso. Por isso, falo como uma oração. Que Deus nos leve a um outro patamar. De entendimento à prática. Como dizem os pragmáticos, “transformando nossa visão em ação”. Que seja assim. Senão de nada adiantou entendermos sobre o evangelho. Se é que o entendemos de fato…pois este é “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”.

 

Comentários em: "A dificuldade de se entender e viver na Graça de Deus" (11)

  1. De fato, na mente da maioria dos cristãos, entender que a graça impõe responsabilidades pessoais é difícil. as pessoas querem um “guru” que digam a elas o que deve ou não ser feito, daí a dificuldade em exercer a doutrina do sacerdócio de todos os crentes. Como pastor, de igreja instituida, gostaria que a visão das pessoas abrisse. Nãoé o templo ou a denominação que liga a Deus, muito o menos o líder, mas Cristo.

    um abraço!

  2. osvaldo disse:

    Concordo com o comentário do Pr. Claudiney Duarte.
    Busco um melhor entendimento sobre a Graça de Deus, ou melhor, como viver na graça de Deus.
    Depois nque passei a ter um melhor conhecimento da Palavra, passei a não concordar com muitas coisas que acontecem na igreja que sou membro.
    Vejo as pessoas presas, de certa forma.
    E acho que devemos viver com liberdade.
    E liberdade de espírito.
    um abraço!

  3. Andressa disse:

    Só hoje, após 23 anos de evangelho as escamas dos meus olhos caíram e descobri o que realmente significa viver na Graça de Deus. Estou com vergonha, indignação e a sensação de tempo perdido. Por que ninguem me ensinou isso antes???? bom, a hora é chegada e o tempo é já, esquecendo as coisas que para trás ficaram, sigo para o algo, agora de mente renovada. Como o pastor Claudiney disse, acho que agora é muito mais difícil, porque não tem uma receita de bolo, um trilho a seguir, e sim o caminho, no caminho há obstáculos e dificuldades que no trilho não tem…

  4. Sabias palavras, fez refletir mais na minha vida, estou me sentindo como peixe fora d’agua, e a palavra que e pregada na minha igreja parece miojo, e estou profundamente desapontado com o movimento pentecostal, e seus moveres, quero Deus de verdade todo dia, nao quero ficar atras de moveres que. Quando mais pula mais esta cheio, e se nao pular e falar shurianda, e poque. Voce esta morto, como desabafo estou cheio disso, me ajude por favor.

    • Nikael, em primeiro lugar lhe afirmo que como você muita gente pensa assim também. Estão esgotadas com a religiosidade vã e sem conteúdo, com o dogmatismo, com os líderes religiosos que mais parecem juízes das pessoas. Além de tantas outras distorções da religião que nada mais tem a ver com a mensagem simples de Jesus. Para lhe ajudar de forma mais consistente, me diga em qual Estado você mora. Dessa forma poderei indicar alguns amigos que poderão conversar com você e assim você teria alguém próximo para conversar. Caso prefira, me escreva: talesmessias@gmail.com.abraços. Tales

  5. Realmente… os costumes estão tão presentes em nós que é uma imensa luta para também não sermos praticantes…rsrs. Seu texto me faz pensar mais uma vez que somente conseguiremos quando nossa vida estiver totalmente no controle de Deus… enquanto parcial, continuaremos apenas no progresso de “libertação” se é que podemos chamar assim…hehe. Em suma, concordo plenamente! E é claro, me incluo nesta oração: “Que Deus nos leve a um outro patamar. De entendimento à prática. Como dizem os pragmáticos, “transformando nossa visão em ação”. Que seja assim. Senão de nada adiantou entendermos sobre o evangelho. Se é que o entendemos de fato…pois este é “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”.”

  6. Pr. Anderson Trajano disse:

    É isso mesmo meu irmão… vamos para de chamar dogmas e doutrinas de “Meu Deus”. Forte abraço.

  7. Bp. Pedro Meister disse:

    Ontem estava em uma reunião de jovens na Igreja (Institucionalizada, pois onde não ha´ liderança, cada um faz e interpreta o que, e como quiser), A pregadora da noite falou sobre a Graça de Deus. Vaso para Honra e vaso para desonra. Vasos que honram a Deus e vaso que não honram. Ao final da sua palavra falei sobre generosidade e hospitalidade. Eram duas coisas que via na minha mãe a admirava. Um dia falei a ela que gostaria de ser como ela, ela respondeu: Ore a Deus que Ele te dará isto. Orei e ambas se fizeram presentes pela Graça de Deus. Ontem quando fiz o apelo para que recebessem algum destes dons, ou ambos, sabe qual foi ninha surpresa? Ninguém veio ao apelo! Porque? Por que o conceito acima descrito é;”Estou na Graça”, Graça para alguns é: não quero responsabilidade com nada e com ninguém, muito menos com as escrituras onde registra em atos dos apóstolos, nas casas e nos templos. Fidelidade nos dízimos e ofertas. Dizimo é o minimo. Não foram homens que estabeleceram porcentagens, foi Deus. 10% é parâmetro administrativo. Deus sabe que se não fizesse assim não dariam nada para sua a obra. Porque não perguntamos ao nosso chefe de trabalho para que ele nos pague o quanto ele acha que merecemos no final do mês? Porque estabelecer um valor? Você não conta com a generosidade dele? Deus sabe que esta natureza caída precisa de Lei para sobreviver ainda que debaixo da Graça. Deixo meus comentários, porque acho muito importante o contraditório. Um abraço a todos e um desfrute da Graça de Deus em Cristo Jesus, O Senhor.

  8. Luiz Otavio disse:

    Verdadeiramente somos por demais ingratos com a Graça que nos alcançou, pois em vez de demonstrarmos nossa gratidão o que sai de nós é simplesmente apatia, a mesma apatia que acometeu os 9 leprosos que foram curados. Que o Senhor Deus em sua Graça nos Liberte de nossa apatia para que sejamos fervorosos em espírito ao demonstrar sua Graça em graça entre os Irmãos e exalando o ambiente onde estivermos com amor fraternal.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: