Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias (Maio 2009)

 

‘Melissa quer se blindar dos aborrecimentos e não fala dos problemas com as pessoas. Cultiva a aparência e a vaidade’, descreve a atriz Cristina Torloni à Folha.

Melissa é a personagem de Cristiane Torloni na novela Caminho da Índia. Ela é uma eterna fugitiva da realidade. Cultiva a vaidade não por amor a si mesma. Mas, semelhante ao avestruz, que diante de algum perigo real não corre mas, ao invés disso, enterra sua cabeça num buraco, assim Melissa reage diante dos problemas que enfrenta diariamente: esquizofrenia de um filho, infelicidade no casamento, ociosidade. Todo o tempo refugia-se nos cosméticos, na ginástica, na contemplação de si mesma, na preocupação exagerada de sua pele, cabelos e corpo.

Melissa nada mais é do que um protótipo do que vemos todo dia junto de nós. Ou em nós mesmos. Isso porque somos tentados a fugir da realidade ao invés de enfrentar os problemas que se apresentam. Somos inclinados a nos ocuparmos ao invés de encararmos tudo aquilo que nos perturba e nos tira a paz. Preferimos a fuga ao enfrentamento. Preterimos o diálogo às atividades.

Vejo isso todos os dias. Próximo a mim e até em mim mesmo. Usar maquiagem é mais fácil do que enxergar nossos defeitos e mostrá-los aos outros. Buscar fuga traz mais prazer do que o desgaste de encontrar soluções.

E tudo serve como fuga. Tudo. Não falo das fugas óbvias: drogas, bebidas, alucinógenos. Esses são declaradamente utilizados para “esquecermos de nossos problemas”. Falo de nossos sutis “passatempos” que nos servem ocultamente como alucinógenos. Coisas que por vezes sequer temos consciência de tal efeito em nós.

Falo de ocultarmos nossa realidade através de obsessões por diversas coisas fúteis (futebol, jogos, trabalho – que é fútil diante de outros valores – roupas, compras, televisão, novidades tecnológicas), ou nos furtamos da realidade com programações (religiosas, acadêmicas ou outra) que em si mesmas não trazem mal algum, mas que, pela motivação da fuga, acaba por nos alienar e potencializa ainda mais as nossas doenças da alma.

Falo de por que precisarmos trabalhar além do que se exige, da razão de comprarmos além de nossas necessidades, de gastarmos além do que podemos, de precisarmos comprar não exatamente o que gostamos mas o que os outros gostam de ver, de preferirmos mais o shopping do que nossa casa, de precisarmos rir quando necessitávamos de alguém para chorar (ou o oposto quando queremos usar o choro na busca de atenção das pessoas). Por que precisamos nos esconder daquilo que somos? Ou de como estamos? Por que a necessidade de não se assumir nosso estado?

Talvez por medo de como seremos julgados. Talvez por termos sofrido muito quando em alguns momentos tivemos coragem de mostrar o que somos. Talvez porque as expectativas dos outros sobre nós nos pressionam a vivermos mascarados. Talvez porque desejamos ser o que o outro é e vivemos nessa eterna insatisfação por nos enxergarmos diferente do outro. Talvez porque temos a ilusão de precisarmos ser diferentes para Deus para que Ele nos ame. Talvez porque precisamos ser amados e achamos que se formos vistos como de fato somos, seremos então rejeitados. Talvez porque o grupo social onde estamos inseridos faça coerção sobre nós a fim de nos amoldarmos ao que este acha que seja uma “normalidade”.

Por fim, nessa ansiedade de mostrarmos quem não somos acabamos nos perdendo de nós mesmos. Além de nos perdermos da realidade. Tal qual Melissa. Que nada mais é que um protótipo do que vemos no dia a dia bem perto de nós. Muitas vezes dentro de nós.

 

 

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