Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

 

Há um momento na vida (no meu caso isso só chegou após os 32 anos) onde descortina-se para nós novos modos de enxergarmos a vida. Atividades que antes valorizávamos, perdem completamente a beleza. Pessoas antes cultuadas deixam de exercer influência. Livros e autores antes admirados passam a ser questionados. Temas que nos arrebatavam por horas, que nos levavam a debates calorosos, são completamente desinteressantes. Preletores que nos levavam ao êxtase são igualados a quase todos os demais. A atração da multidão se torna em repúdio. O sem-número de amigos não resiste ao filtro do tempo. Por fim, os poucos amigos gotejados cabem nos dedos das mãos. Mas, são capazes de encher mais o coração. Aquela nossa forte tendência em precisarmos depender de conselhos dos outros torna-se numa independência madura que valoriza os conselhos mas ponderando-os com sua própria consciência e espírito. As intituições – antes tão sólidas e transmissoras de piedade humana – por fim mostram-se frágeis e por isso mesmo tão dependentes de líderes que a exaltem a fim de que seja preservada.

 

Diante de todas essas desconstruções, o que fica em seu lugar?

Em seu lugar, vem o deslumbrar-se com a vida. Agora mesmo, enquanto escrevo, minha filha (com 04 anos), gratuitamente chegou perto de mim, colocou sua cabecinha em meu braço para enxergar o que eu fazia no computador, me beijou espontaneamente e foi embora. Que atividade poderia me arrebatar mais que isso?

 

Aprendemos a olhar para a vida como um descobridor-observador, ávido por ser surpreendido por algo novo, mesmo sendo os mesmos cenários de sempre. Que sedução pode haver mais no aplauso de uma multidão? Em seu lugar a beleza de se estar com poucos é sobreposta. A experiência de poder enxergar poucos de forma mais profunda, de tomar um café podendo deliciar-se do aroma e sabor ao mesmo tempo em que descobre-se quem o outro é torna-se incomparavelmente mais sedutor do que a sedução de estar sendo visto por uma multidão. A delícia de podermos ser quem somos sem que se precise representar um personagem diante de uma multidão sedenta por ícones.

 

Descobrimos que as emoções existem quando estamos sozinhos também. Enquanto somos visitados em nosso espírito lendo um livro de extrema sensibilidade. Enquanto somos abençoados com um e-mail amigo, com uma mensagem (até no power point) de uma amiga, quando somos surpreendidos com um beijo ou um olhar apaixonado (mesmo de um filho). Quando nos sentimos extremamente-divinamente-completamente-absurdamente amados por Deus, sem que precisemos fazer coisa alguma para Ele. Sim! Pois quem ama não ama por termos feito algo. O Amor não tem preço. É gratuitamente caro. É espantosamente espontâneo. Não faço hoje, por isso, mais nada para Deus. Mais nada! Nada! Vivo com Ele agora. Simples assim. Vivo tendo a sólida noção de que Ele não tem casa de pedras, por isso não mora em templo de igreja algum. Nenhum! Ele mora em nós. Como diz o Mário Quintana, “Amor é quando um mora no outro”. Por isso, minha relação de amor com Deus hoje é uma moradia nEle e Ele parcialmente em mim pois Ele inteiro não caberia de jeito algum em mim.

 

Um dia essa forma de ver vida chega. E olhamos para as pessoas, para a natureza, para a criança, para a TV, para o sorriso, para os olhares, pelas ruas, pelas janelas e percebemos que coisas antes despeercebidas ganham valor incomparável e que coisas antes supervalorizadas já não “saltam à vista”. Para mim essa nova forma de ver a vida chegou após meus 32 anos. Após imensas falências pessoais. Após imensas crises pessoais. E, também, após êxitos em outras áreas de minha vida. Tudo então refaz-se de forma diferente. Para algumas pessoas essa visão nova da vida chega em outra idade. Infelizmente para alguns parece que nunca chega.

 

Como enxergo os que ainda não parecem ter vivido essa reviravolta? Com amor. Não tenho mais a impulsividade e violência próprias da juventude. Minhas convicções estão mais firmes do que nunca! Mas não preciso que ninguém acredite mais em mim. Não preciso mais que ninguém me siga. Não preciso que ninguém concorde com o que penso. São minhas essas convicções. Por isso, enxergo os que não vêem assim com amor e, lá dentro, uma pontinha de pena, de compaixão, de vontade de vê-los vivendo e enxergando coisas ainda não vistas, mas tão belas. Mas, não sou responsável em abrir os olhos das pessoas. Desisti da ambição de ser Deus. Desisti. Preferi ser filho dEle.

 

Preferi viver.

Comentários em: "QUANDO O VIVER SE TORNA MAIS IMPORTANTE" (3)

  1. Cleonardo disse:

    Tô aprendendo a viver. Tá difícil, mas eu chego lá

  2. Poli disse:

    Na simplicidade dos teus textos/pensamentos eu relembro que a vida é simples, nós é que complicamos tudo.um beijo grande!

  3. Rebeca disse:

    Amei o texto, amei a forma como vc se expressou. Penso exatamente assim, e isso também veio após os 32 anos… por que será??? kkkk Bem, fazemos parte da mesma geração! Saudades do amigo da adolescência, do colega de colégio… kkkDeus te abençoe =)Bec@

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