Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

 

Neste final de semana, assistindo ao programa Fantástico, me impressionou a entrevista do ator Fábio Assumpção. Um jovem ator, já consagrado, galã de novelas, cara de bom moço, bem sucedido financeiramente, aparentemente feliz. Repentinamente ele foi afastado das novelas, divulgando-se sua dependência com drogas. Só agora, quase um ano depois, ele “coloca o rosto na rua” e comenta seu drama pessoal e sua luta para se recuperar da dependência.

 

Me impressionou aquela entrevista, primeiramente, pela aparente mudança em seu aspecto físico. Mais abatido. Mais envelhecido. Mas, por outro lado, mais humano. Menos ator. Mais gente. Menos estrela global. Mais parecido com todo mundo. Assumindo fragilidades (quando perguntado se achava que poderia ter recaídas no consumo de drogas ele respondeu que não sabia, não poderia prever). Assumindo solidão (quando perguntado sobre o apoio dos amigos afirmou que ninguém ficou ao seu lado a não ser os pais). Visivelmente mais maduro, mais consciente de seus limites, até mais ponderado em suas palavras.

 

Impressionante a força que subsiste por trás dos sofrimentos. Capaz de nos transformar em quem nunca sonhávamos. Capaz de nos moldar tal como o fogo ao ferro. Pela dor. Com choro. Com a quase insuportável companhia da solidão.

 

Após esses momentos, relembramos do que é básico. Volta à memória o que nos foi ensinado primeiro. Parece que finalmente ouvimos o sussurro do que nos diziam nossos avós e pais. Como uma ruminação de memórias, quase podemos ouvir a voz suave daqueles, nos afirmando dia a dia sobre o amor deles quando nos diziam que estariam sempre ao nosso lado. Na época, era só uma voz aos nossos ouvidos jovens e impacientes. Hoje, com os ouvidos envelhecidos e combinados ao coração, enxergamos ser verdade o que diziam. E não só isso mas tudo o que era de mais básico voltam a nós como se fossem “novidades”. Sendo, no entanto, vozes conhecidas. Mas, esquecidas.

 

– Nos esquecemos que cuidar dos que estão perto de nós é mais importante do que buscar o sucesso profissional.

 

– Nos esquecemos de que nossa casa precisa ter prioridade sobre nosso escritório.

 

– Nos esquecemos de que nossa mesa de jantar traz mais saúde do que nossa mesa de trabalho.

 

-Nos esquecemos de que as vozes de nossos pais – que não ouvíamos por vezes – serão as mesmas repetidas aos nossos filhos.

 

– Nos esquecemos de que a gentileza, a educação, o “bom dia” deve-se dirigir a todos sem distinção de classe.

 

– Nos esquecemos de quando nossos pais diziam “como se diz, meu filho? Diga ‘obrigado’ a ele”. Nos ensinando a agradecer pequenas gentilezas dos outros.

 

– Nos esquecemos de que a maioria absoluta de nossas amizades cessam diante das nossas crises ou mesmo ausência pois eram pautadas nas relações de trabalho ou em qualquer outra atividade e não num verdadeiro sentimento de afeto.

 

– Nos esquecemos que os cabelos brancos não são só sinônimos de velhice mas de experiência, de maturidade, de beleza interior, de conselhos pautados em experiências.

 

– Nos esquecemos que a beleza física atual que superestimamos durará apenas mais alguns anos. Em seu lugar, ficará a sutil beleza da impressão dos anos.

 

-Nos esquecemos que felicidade não é um patamar, um estágio onde se chega. Mas, um “meio de caminhar”, a forma em que se vai e não um local onde se chega.

 

– Nos esquecemos que o que nos forma e nos molda não é o que ganhamos pelo caminho mas o que se conseguiu ser nesse caminho. É no que nos tornamos e não aquilo que alcançamos.

 

– Nos esquecemos que diplomas ornamentam nossos escritórios, impressionam os outros, mas não nos fazem ser melhores amigos, melhores pais e maridos, melhores amantes, melhores filhos.

 

– Nos esquecemos que nossas maiores crenças são revistas ao longo de nossa vida e que por isso deveríamos ser mais tolerantes e pacientes com a opinião dos outros.

 

– Nos esquecemos de que um beijo sincero vale mais e enche mais a alma que qualquer quantia em dinheiro.

 

– Nos esquecemos que, quando crianças, por vezes valorizávamos mais alguns simples brinquedos em detrimento de outros tão caros. E que isso deveria nos ensinar a valorizar pequenos gestos, pequenos presentes (um cartão, um chocolate pequeno mas exatamente do tipo de que você gosta), pequenas lembranças ao invés de valorizarmos apenas grandes fatos e presentes caros.

 

Por fim, deveríamos aprender com a água que não se detém diante dos obstáculos. Apenas os contorna. Mas, nos esquecemos disto e gastamos tanta energia e tempo em questões que simplesmente poderiam ter sido contornadas.

 

É um chamado à memória. Um lembrete para a alma. Para que lá de dentro as vozes que um dia já ouvimos voltem a soar. Que as coisas básicas voltem a ser praticadas. E cridas. E valorizadas. E repassadas a outros.

 

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