Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

Janeiro 2010

 

Como eu podia me afirmar seguidor de Cristo se não podia seguir para onde ele estava indo?

 

Eu não conseguia mais me afirmar um seguidor de Jesus. Eu não podia mais me ver como um “cristão”. Não.

 

Não falo isso me referindo ao tempo em que andei com profundas crises pessoais e conjugais. Não falo isso com relação aos momentos em que peco contra minha esposa, quando sou estúpido e insensível com minha filha. Não falo sobre momentos quando sou ausente na vida de meus pais. Não estou, em outras palavras, me referindo aos meus pecados. Não estou! Pelo menos não aos pecados comportamentais.

 

Estes, nunca surpreenderam a Deus. Nunca. Ele sempre soube o quanto sou miserável e desgraçadamente fraco. Meus pecados apenas surpreenderam àqueles que depositavam em mim uma imagem de invulnerabilidade. Meus pecados também surpreendem a mim mesmo pois eu mesmo tinha uma imagem errada sobre minha potencialidade para fazer o mal. Achava-me imune, vacinado. Pior, achava-me capaz de não pecar. Pelo menos não sobre “aqueles” pecados que eu mesmo achava feio demais. Acima daquela margem que eu considerava aceitável a um cristão pecar. Meus pecados só surpreendem aos cristãos que se consideram acima da média da humanidade. E eu estava entre esses. Por isso, meu pior pecado não foram minhas falhas comportamentais visíveis. Foram, antes, aquelas estruturas mentais que eu escondi por tanto tempo em meu coração que me faziam crer e viver como sendo não só um cristão mas alguém que estava dotado de uma imunidade maior contra os pecados e falhas. Achava-me melhor que os demais. Se você pensa que esses pensamentos sobre mim eram explícitos, está enganado. Esses pensamentos não são ditos, expostos. Nem eu mesmo, se você me perguntasse, afirmaria que me considerava melhor que os demais. Eu não confessaria isso pelo fato de, conscientemente, discordar disto. Essa atitude de achar-me imune não era explícita. Isso estava no coração. Escondida de forma que nem eu mesmo percebia. Isso se mostrava, por vezes, em momentos curtos, flashs, capazes porém de desnudar o que se passava no coração. Quer exemplos? Em momentos onde publicamente eu era elogiado de uma forma diferenciada, em momentos onde minha oração era considerada mais importante, em momentos onde me sentava acima de todos os demais na multidão, em momentos onde todos deveriam me esperar sair de algum ambiente para então os outros saírem, em momentos onde via meu nome projetado, anunciado, com holofotes sobre ele. Para alguém humilde (como Jesus), isso tudo considera-se como doença que não podemos deixar entrar no coração. Para alguém humano, escondidamente orgulhoso e imaturo, aquilo penetrava no coração e escondia-se lá dentro. Ninguém percebia. Nem eu. Mas, lá dentro aquele orgulho ia injetando, pouco a pouco, a doença que viria mais tarde a disseminar-se completamente.

 

Por isso, a doença não foram meus pecados visíveis. Não são eles. Eles são a febre da doença. É o que se expõe. É o que nos enfeia. É o que se projeta da doença para o mundo. Mas, a causa, a raiz, o pecado de fato causador disso mora no coração. “De onde provém as guerras e contendas que há entre vós? No coração…”. Ou, como o salmista nos disse, “sobretudo o que se deve guardar, guarda o teu coração”.

 

Por isso, quando comecei o texto afirmando-perguntando que não podia me afirmar seguidor de Cristo se não estava seguindo-o por onde ele estava indo não me referia aos pecados exteriorizados – como  normalmente é afirmado pelos cristãos.

 

Eu me referia a não poder mais mostrar o que não sou. O que não era. O que não continuo sendo em muitos aspectos. Sim, pois todos, em nossa caminhada, temos mais sucesso pessoal em algumas áreas da vida do que em outras. Nunca completamente. Sempre por terminar. Eu não conseguia mais precisar ser o que eu não era. Precisar ser o que os outros queriam. Precisar falar o que os outros preferiam. Precisar me vestir como era instado a isso.

 

Como seguidor de Cristo Ele me pede apenas autenticidade, transparência, coerência com minhas ações. Não me pede que eu seja e transpareça ser o que não sou. Não me pede perfeccionismo a fim de que uma multidão observe você e se apaixone pela vidinha ornamentada que transparecemos ter. Não é isso que Deus me pede. Deus nunca se surpreendeu com Davi (que adulterou , matou e foi um pai tão questionável), com Moisés (que matou e nunca confessou), com Salomão (com seu harém), com Elias (que não obteve sucesso com seus filhos), com Adão (que teve a tragédia de um assassinato entre irmãos, assim como Davi), com Jacó (com sua acepção por um dos filhos), com Pedro ( e seus rompantes temperamentais e covardia em alguns momentos), com Judas (que para Ele já era traidor e ainda assim foi convocado a ser discípulo), com Mateus (e sua traição à pátria), com Paulo (e sua impaciência com alguns, a exemplo de Marcos). Deus nunca se vê surpreso diante de meus pecados. Ele conhece todos eles. Ele detesta mais é quando minto aos outros e a mim sobre quem sou. Ele abomina é quando vivo sem perceber-me. E sem deixar ser percebido pelos outros.

 

Por isso, para ser seguidor de Cristo eu precisava seguir a Ele. Não mais o que as pessoas querem de mim. Nem o que a denominação exigia de mim. Nem o que uma multidão desejava. Nem o que meu coração gostaria que eu fosse. Precisava ser quem eu era. Só. Isso é um convite à acomodação? Não. Á sinceridade, sim. A partir dela, poderemos correr para um alvo sabendo o ponto inicial. A partir disso, visualiza-se o alvo tendo a real noção de onde estamos. A partir disto não se aceita mais aplausos e nem elogios por sabermos quem somos. A partir disto aceita-se ser pastor sem precisar ser um “deus” para o povo. A partir disto sabe-se que sua oração é igual à de todo mundo. Que suas lutas e pecados (e continuam sendo muitos) são iguais as de todo mundo.

 

Para ser seguidor de Cristo precisa-se abandonar a cadeira de Moisés. Precisa-se deixar de ser legislador. Precisa-se deixar de ver-se maior que as pessoas. Precisa-se descer do palanque. Precisa-se voltar a ser gente. Precisa-se voltar a chorar por saber quem somos de fato. Precisa-se voltar.

 

A ser criança inclusive. Que não é inocente. Não foi isso que Jesus quis exaltar na criança. Mas, antes, quis mostrar que elas são incompetentes. Que são dependentes. Que são incapazes de viver sem os pais. “Vinde a mim as criancinhas pois delas é o Reino”. Como quem diz, “vinde a mim como uma criancinha, dependente, que sequer sabe ir ao banheiro, comer, andar, se não for ensinada a isto. Vinde a mim como ela.Que sabe não poder fazer sem os pais. Incompetente. Incapaz. De uma criança assim é o Reino”. Pois disse-nos Jesus “só posso fazer o que vir o Pai fazer.”

 

 

Que Ele me leve a andar nos passos dEle. Nos dEle somente.

 

 

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