Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

16.02.10

 

Sou do tipo que adora a festa do carnaval por ser feriado. Nesse tempo busco descanso, sossego, praias, bons filmes, companhia de família e amigos e bons livros.

 

Por ter tido uma tradição evangélica ouvi muito a condenação lançada a esta festa, de que era uma festa demoníaca, que era uma festa da carne, que cristão verdadeiro não deveria participar dela e muitas outras coisas.

 

De fato, ainda hoje – fora dos “gradis” evangélicos – concordo com diversas dessas afirmações… mas não todas. Há uma expressão cultural e folclórica nesta festa que é belíssima. Uma das únicas capaz de unir classes sociais e uma massa da população que movimento algum hoje conseguiria fazer.

 

Mas, o que quero focar é outro aspecto. Mais sócio-psicológico. Aspecto que todos fazem sem muita percepção do que estão fazendo. Fazem sem discernir o que estão comunicando.

 

Falo das máscaras. Sim, delas. Não as máscaras visíveis, mesmo que imensamente criativas. Nesse ano vi várias delas e muitas feitas com imensa criatividade: avatar, animais, políticos, alguns vestidos de casa de palha, homens vestidos de mulheres, mulheres vestidas de homem e muitas outras. Mas, não falo exatamente destas. Máscaras feitas, construídas por mãos humanas. Ou não falo apenas delas. Falo daquilo que jaz por trás delas. Falo daquilo que se comunica quando se está escolhendo estas máscaras. Falo daquilo que as máscaras comunicam sobre quem as usa.

 

No carnaval – e isso é o que mais me impressiona – as pessoas mostram aquilo que normalmente elas detestam mostrar. Ou têm medo. Aquilo que a sociedade detesta no dia – a – dia, aplaude durante o carnaval. Aquilo que se tem asco na rotina é justamente o que se mostra durante a festa. E ainda se afirma: “No carnaval vale tudo. As pessoas estão fora de si”.

 

Errado. Frase completamente equivocada. O que vejo é que no carnaval as pessoas estão dentro delas mesmas como jamais estiveram antes. Elas são aquilo! Elas não estão travestidas! Elas são aquilo! Elas estão travestidas é no dia a dia a fim de que a sociedade agrade-se delas e não as recuse no meio social.

 

Um amigo meu, que é gay, aproveita-se do carnaval para vestir-se de mulher no carnaval e ser aplaudido por todos. Desperta simpatia. Ele pode ser o que ele é sem que isso cause aversão. Ele pode ser o que é – mascarado – finalmente. Ele coloca a máscara visando se desmascarar. Ele fantasia-se a fim de mostrar finalmente o que ele é de fato. As máscaras, nesse caso, desmascaram ele.

 

No Rio, como outro exemplo, foi formada uma equipe de repressão a todos os que defecassem e urinassem no espaço público. Os “apertados” precisariam procurar os 4.000 banheiros públicos espalhados pela cidade (daria uma média de mais de 600 pessoas por banheiro). Neste exemplo, tanto as pesssoas são desmascaradas quanto o próprio Estado. De um lado, na entrevista que vi sobre esse assunto, apareciam pessoas aparentemente de nível social mais alto – professores universitários, empresários, etc – fazendo xixi no meio da rua e sendo levados a delegacia. Talvez – desconsiderando, claro, a própria necessidade física – sejam aquele tipo de pessoa certinha, correta, que só faz xixi em casa ou, no máximo, num banheiro de shopping aproveitando-se do carnaval para urinar na rua e sentindo-se “gente” novamente e não um bonequinho de porcelana. Até várias mulheres foram vistas agachadas para urinar. Muitas delas conhecidas da classe social mais alta. Repito, no carnaval as pessoas aproveitam para ser aquilo que são de fato e não o que são impelidas a serem todos os dias. Por outro lado, o Estado também é desmascarado se mascarando. Coloca banheiros públicos e uma equipe para repressão … ao xixi e ao cocô. No Rio de Janeiro? É isso o que precisa de urgente repressão no Rio? Precisa que eu responda a estas duas perguntas? Talvez a Copa e as Olimpíadas sejam as máscaras do Rio de Janeiro. Elas tentarão esconder as “vergonhas” do Rio e do Brasil. Mas, estas repressões ao xixi e cocô acabam desmascarando essas intenções dos políticos e acabam por expor suas motivações.

 

Em outra entrevista, em Salvador, há no carnaval o que se chama de “Vale Night”. O casal procura uma tenda onde se “vende” o “Vale Night”. Nesta, eles recebem dois cartões para ser assinado por cada um e guardam estes cartões consigo. Um se despede do outro naquela tenda e saem “como solteiros” para a festa do carnaval. Durante aquela noite eles podem fazer o que quiser, transar e ficar com quem quiser porque “libertaram” o outro através daquele “Vale Night”. O Vale é uma máscara. Uma máscara que desmascara o casal. O Vale nada mais é do que a oficialização do que se deseja a vida inteira. O vale nada mais é do que o símbolo do que já se faz sempre (ou se deseja fazer sempre. Há diferença entre fazer sempre e se desejar fazer sempre? Os religiosos dirão que sim. Os não religiosos – mas honestos – dirão que não. Dentre estes últimos, está Jesus).

 

Enfim, o que quero comunicar aqui é simples. Em festas e momentos como o carnaval as máscaras sociais e psicológicas caem através das máscaras físicas. Aquilo que comunicamos achando que é uma fantasia e uma brincadeira é, na verdade, aquilo que sempre existiu em nossa consciência e que nunca foi liberto devido ao medo da coerção social.

 

Por isso, devido a este lado, gosto do carnaval. Além do descanso que já falei. As pessoas finalmente podem ser quem são. Mostrar o que são, do que gostam, o que valorizam. Sem medo. Quero deixar claro uma coisa: não gosto de enxergar que as pessoas (e eu) estão assim. Não acho bonito o estado em que estão. Acho, antes, benéfica a exposição. O mostrar finalmente quem elas são.

 

Na quinta, elas voltarão a ser pessoas aceitáveis, engomadas, com gel no cabelo, paletós bem passados, atrás das janelas escurecidas com película de seus carros. Voltarão a julgar e condenar quem se porta de forma ridícula em público. Voltarão a chamar de ridículas as pessoas que destoam do geral e aquelas que fazem coisas em público que não deveriam fazer segundo a opinião alheia. Voltam a só fazer xixi reservadamente, voltam a desfilar com suas esposas dando a impressão de serem super fiéis, observam algum mascarado na rua com desdém e o menosprezam chamando-o de exibido. Voltam a ser “normais”. Mesmo que tudo aquilo esteja interiorizado neles mesmos. Mas, eles rejeitam como se nunca tivessem feito aquilo e gostado daquilo.

 

Deveríamos viver sempre como se vive no carnaval? É isso o que estou dizendo? Deixo a pergunta com você. Antes de terminar, faço outras… Uma sociedade que, quando desmascara-se, torna-se na festa do carnaval, é uma sociedade sã? O que é melhor, viver mascarado durante os 04 dias ou ter uma vida mascarada durante o restante do ano? O que mais mascara as pessoas… uma fantasia de carnaval (que como disse mais desmascara do que mascara) ou outros ambientes mais formais da vida: mesa de um escritório, sala de aula, púlpito de uma igreja evangélica que esconde aqueles que estão por trás, câmeras da TV que esconde as muitas infelicidades dos que vivem sempre em exposição, a chefia de uma grande empresa que condena o executivo a estar sempre “motivado” e muitos outros exemplos.

 

A cidade está mais fantasiada durante o carnaval ou durante o ano inteiro, sem o carnaval? Julgue você mesmo.

Comentários em: "Carnaval, máscaras e fantasias…" (1)

  1. Bruno disse:

    Caro Tales, excelente texto. É bom não se sentir tão só nos pensamentos. Dá uma olhada nesse texto que escrevi, chama-se hipocrisópolis: http://querosermaishumano.blogspot.com/2009/08/hipocrisopolis.html

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