Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Tales Messias

 

Certa feita, quando minha filha – ainda com 03 anos – foi convidada a ser dama de um casamento apresentei a uma amiga em meu trabalho os três possíveis vestidos que minha filha usaria naquele evento. Ainda estávamos decidindo qual deveria ser usado por ela. Aos meus olhos, os três eram bonitos. E muito parecidos. Essa minha amiga, porém, quando apresentada aos três – através de fotos – decidiu em minutos qual era o mais bonito: ela me pediu para aumentar o zoom do computador e ficou a observar os detalhes de cada uma das roupas. Em minutos ela decidiu o mais bonito. Como eu estava tomando essa decisão a semanas, perguntei a razão da decisão tão rápida dela. A resposta: “observe os detalhes. Esse é mais bonito. Mais delicado nos detalhes. Esse é o melhor”.

 

Michelangelo, artista italiano renascentista, é tido como o maior artista de seu tempo. Chamado também de O Divino. Ele conseguia expressar o belo, o sublime através de suas obras. Os que têm o privilégio de conhecê-las – o Baco, o Moisés, o teto da Capela Sistina, como exemplos – se impressionam principalmente pela imensa riqueza de detalhes em suas obras. As expressões das faces, as sombras, os músculos, os detalhes minúsculos em suas pinturas e esculturas é que fazem toda a diferença entre sua produção artística e da maioria dos outros.

 

Temos uma forte tendência de observar o todo. O geral. O quadro inteiro. Temos muita dificuldade de observarmos os detalhes da obra, da vida.

 

Numa amizade, por exemplo, mesmo sendo ela tão bonita e tão sólida. Se não houver atenção nos detalhes, no que é mínimo, pode ir tornando-se uma amizade cheia de saudades. É aquele tipo de amizade que apenas recorda. Que apenas lembra os bons tempos que já foi desfrutado. Que apenas olha para trás. Já não possui presente. Posto que a intimidade diminuiu, a cumplicidade foi perdida, a confiança se desfez um pouco. Isso nunca termina repentinamente. Isso se esvai pouco a pouco. Com gestos – muitas vezes mudos. Com a comunicação corporal ao outro de que já não se deseja caminhar tão próximo como antes. Com a diminuição dia a dia da comunicação. Antes, tantos e-mails e telefonemas. Hoje, raros. Antes, buscava-se tempo para se estar junto num almoço, num jantar. Hoje, nenhum esforço para esse tempo. Mesmo os mais sólidos relacionamentos não resistem à ausência de pequenos desses detalhes.

 

Num relacionamento, seja entre pais e filhos, seja conjugal, seja um romance, na ausência de detalhes minúsculos não persiste. Se sobrevive, persiste sem poesia. Continua mas já sem a beleza própria de quem está apaixonado. Sobrevive sem que se enxergue no olhar o desejo, a beleza, o sadio ciúme, o amor.

 

Se um pai não consegue desfrutar tempo para sentar no chão com a filha, “perder” tempo para jogar jogo da memória com ela, fazer “arte” em massa de modelar, assistir filmes infantis abraçados, caminhar na rua com ela, nas praças. Apenas para se estar juntos. Fazendo o que ela deseja. Sem que seja o pai que estabeleça a agenda. Sem que sejamos nós a ditarmos o programa. Se não fizermos isso, seremos no futuro meras figuras na vida dela. Seremos dispensáveis pois outro exercerá a função em nosso lugar. Seja o namorado, uma amiga, um professor. Os detalhes da vida dela são mais importantes que o quadro todo. Os detalhes fazem parte daquilo que generalizamos com a palavra “educação”. Educação não é prover estudos. Não é pagar mensalidades. É fazer com que a filha absorva – dos pais – virtudes e valores que em nenhum outro local ela conseguiria ter. Essa absorção apenas acontece de forma lenta e quando se está em contato com ela. Por isso a necessidade de se ter paciência no lidar e tempo sem pressa investido no convívio com ela.

 

Se num casal os detalhes deixarem de existir, ele estará fadado ao fim ou a uma continuidade sem vida. Se não mais existir pequenos gestos, pequenos presentes, pequenas lembranças, pequenos olhares que demonstram que se conhecem, cumplicidade mesmo em pequenas questões. Se não mais existir é porque está próximo de terminar. Ou, o que considero pior, está destinado a uma sobrevivência por hábito apenas, por se estar acostumado ao outro. Não mais por amor. Não mais por romance. Não mais pelo desejo de se estar. Há sexo. Mas, sem desejo. Por necessidade apenas. Há café da manhã. Mas, sem convivência. Há jantares, mas sem que os assuntos sejam sólidos e íntimos. Torna-se numa convivência fraternal de dois amigos. Torna-se num convívio solidário. Onde projetam juntos despesas financeiras, criação de filhos, viagens nas férias, compras de bens. Mas, sente-se que já não fazem isso por estarem com objetivos de desfrutarem juntos daqueles projetos. Talvez pensem nos filhos, talvez pensem numa viagem para estarem perto de alguns amigos, talvez pensem naquela compra apenas por necessidade. Não mais pelo casal. Isso se perde quando a importância dos detalhes é perdida.

 

Nosso desafio: administrar o todo e admirar os detalhes. Cuidar de gerenciar o quadro geral. Mas, perceber a beleza do pequeno, dos gestos, do olhar, dos pequenos detalhes. Não do que é caro apenas. Dos pequenos presentes. Não do que está no palanque somente. Mas também do que existe nos bastidores.

 

Relacionamentos – sejam quais forem – não sobrevive apenas de jantares, presentes caros ou viagens. Um gesto inusitado, pequenas palavras ditas em secreto, lembranças com a intenção de comunicar que aquela pessoa foi lembrada e outros, muitos outros, pequenos detalhes, é que transformarão os jantares em momentos significativos e as viagens em datas inesquecíveis. Os detalhes. Sem eles, tudo – mesmo o que é mais grandioso – se tornará em mero detalhe.

Comentários em: "O VALOR DOS DETALHES" (3)

  1. Gleizy disse:

    É sempre muito bom reagir a tuas idéias e sentimentos, tenho te acompanhado sempre, viu!! Gosto da leveza, atualidade e relevância de cada situação refletida. Abração,Gleizy

  2. Claudia disse:

    Incrivel!!! Compartilhar dos sentimentos, das idéias, da sensibilidade das pessoas, através dos que elas escrevem.Exatamente hj, pensava como é importante, perceber os pequenos detalhes, quando o todo nos parece "feio", "desagradável", ou "desanimador".Uma pequena "onze-hora" (uma florzinha que nasce em qualquer jardim) fez com que o meu dia ficasse muito mais alegre e lindo. E agora ler esse texto, completou e demostrou que DEUS tem muitas faces e formas de AMAR a humanidade. Obrigada!!!

  3. Juju disse:

    Muito bonito e sensível este texto. Parabéns! Que cada um de nós possa sempre lembra-se dos detalhes!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: