Um espaço para sermos …circunstancialmente…

OPOSTOS

Ingrid Betancourt. Ela era candidata a presidência da Colômbia quando, repentinamente, foi seqüestrada por guerrilheiros da FARC. Ficou presa na mata durantre 07 anos. Nesse tempo de silêncio e deserto perdeu seu pai, quase suas esperanças e, principalmente, a falsa ilusão de que temos controle absoluto sobre nossa vida e futuro. Estou lendo seu livro onde relata os 07 anos como refém: “Não há silêncio que não termine”. Um livro impressionante, sensível e um retrato profundo da humanidade com suas frragilidades, fraquezas e desilusões.

Hoje, após também ter enfrentado os meus próprios silêncios, me enxergo em diversos dos sentimentos da Ingrid. Não tenho nenhuma pretensão mais de ter controle sobre meu futuro. Temo em elaborar projetos sobre meu futuro. Repenso se devemos viver com pretensões detalhadamente elaboradas sobre como estaremos daqui a 10 anos. Fui treinado a pensar assim: a ter visão, missão, estratégia. Fui treinado e treinei muita gente a ser e agir assim.

Até que vi que nossos planos são absolutamente falíveis. Limitados. São como cientistas que levam em conta apenas os genótipos e não os fenótipos.

Hoje sei que a vida é repleta de contrários e contrastes. Valorizo mais as perguntas do que as afirmações. Aprecio as saudades pois é a prova de que existe o amor. Não tenho medo de viver com sombras visto que só as têm quem possui alguma luz. Não me engano com as proximidades pois sei o quanto distantes elas podem ser. Não me envaidecem as palmas pois sei que elas podem ser antecipações de uma queda. Reconheço hoje que os melhores elogios são aqueles ditos por nossa própria consciência. Não temo os erros e nem os condeno pois foram as quedas que nos ensinaram a levantar e ficar em pé. Não condeno os errados pois talvez buscassem o acerto. Quantas coisas no passado eu defendi ferrenhamente como sendo minhas verdades. Para depois descobrir que elas eram fúteis e que escondiam imensas inverdades. Aprendí a amar quando fui perdoado e então, finalmente, aprendi a perdoar.

A vida tem muitos contrastes e opostos. O que julgamos ser de Graça custou um preço alto. Foi assim para que aprendêssemos a enxergar as variações da vida. A amar os discordantes. A defender idéias tendo em mente que elas podem estar completamente erradas. O Tomé – aquele que duvidou de Jesus – não é para ser visto como um fraco mas como inspiração. Ele é um corajoso. Ele é um dos que têm coragem de duvidar e falar de suas dúvidas. Para logo depois dobrar-se de joelhos diante da verdade exposta. Precisamos aprender a viver assim. Entendendo que a vida não é repleta de verdades, certezas e controle. A vida é um espaço onde precisamos reconhecer e depositar nossas dúvidas. Sem medo de tê-las. As interrogações na história da humanidade foram as grandes responsáveis pelas grandes invenções e descobertas. São elas que nos impulsionam a conhecer mais. E a nos conhecer mais.

Ingrid Betancourt: do controle total à completa dúvida. Para finalmente se reconhecer sensível, madura e frágil. Desejo da vida hoje ter coragem para reconhecer minhas dúvidas. Tenho projetos e planos. Tenho sim. Mas não vivo com obsessão em buscá-los. Respeito e me reconheço mutável. Enxergo minhas sombras como meu desejo de ser além do que sou hoje. Sem um sentimento angustiante de insatisfação. Não. Sei que estou longe de ser tudo o que deveria e poderia ser. Mas, absolutamente ninguém me cobra que eu seja de forma imediata. Nem Deus. Visto que Ele me acompanha. Dia a dia. Passo a passo. Um de cada vez. Como alguém que segue um Caminho.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: