Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Palmeira na praia de Japaratinga, AL

 Passeávamos eu e minha filha pela praia. De longe podíamos avistá-la. Facilmente. Por mim e por minha filha, Deborah,  de 05 anos. Tão estranho era aquela imagem. Uma palmeira, enorme, cresceu em uma falésia paralelamente ao chão. Em direção ao mar. Quando chegamos embaixo dela, minha filha espantada apenas perguntou: “como é que pode, painho, ela crescer assim. Como ela não caiu?”

A imagem era a seguinte: uma grande palmeira (parecida com um coqueiro) cresceu paralelamente ao chão, como um braço da falésia (uma montanha de rocha, que margeava o mar).  Além de toda estranheza devido à direção de seu crescimento havia ainda a improbabilidade dela ter crescido num solo completamente sem areia, em solo exclusivamente rochoso.

Essa cena me levou a pensar em diversas outras.

Primeiro fiquei refletindo em nossa forma de pensar enquadrada a estereótipos e molduras. Quantas vezes, contrariando toda a lógica humana somos surpreendidos por cenas tão inusitadas. E descremos.  O problema é que criamos em nossa mente um conjunto de dogmas existenciais que nos servem de trilho que acabam ditando como a vida deve funcionar e de que forma ela deveria se descortinar. Não aceitamos o inusitado. Preferimos o habitual. O que nos foi ensinado. O que estamos acostumados a ver e ouvir. Em tudo na vida estamos rodeados de enquadramentos que tem a intenção de nos engessar: na psicologia precisam nos enquadrar em parâmetros e quadrantes pré-estabelecidos; na teologia não só os homens são tangidos a se adequarem a uma “orto”-doxia mas até Deus os teólogos tentam enquadrar dentro das teorias de interpretação humana (alguns até ousam se intitular “doutores em divindade”); na administração de empresas tudo é regido de forma quase mecânica através do que se convencionou chamar de planejamento estratégico; na pedagogia tradicional o aluno enquadra-se dentro da interpretação que o professor e os livros impõem.

Como é difícil criar filhos, alunos, discípulos, empresas, funcionários que estejam abertos para o ilógico. Que busquem mais as perguntas que as respostas. Que não desejem conhecer as leis mas, sim, entendê-las e, por vezes, contrariá-las motivados pelas exceções. Nossa tendência geral é para o legalismo, para legislar buscando criar limites, cercas, molduras. Com isso, não me refiro às questões morais e éticas apenas. Refiro-me a tudo. A vida não corre em um trilho tal como um trem. A vida – caso queira compará-la a um meio de transporte – está mais parecida com um barco a vela onde se está à mercê do vento. Este dita a direção e a velocidade. O mais fácil é encarar-se a vida de forma linear. Difícil é se entender que as variáveis nos impedem de impor trilhos absolutos. Podemos projetar, planejar, criar estratégias mas sempre entendendo-se que o inesperado nos abraçará. Aqui não defendo viver-se a vida de forma irresponsável. Defendo, ao contrário, uma lucidez adulta, capaz de entender que os projetos e planos são meros esboços do que poderá acontecer. Que muitas palmeiras teimarão em não crescer perpendicular ao chão. Algumas irão teimar em crescer paralelamente ao chão contra inclusive a lei da gravidade. E crescerão. E darão fruto. Darão sombra também. E, após anos de incompreensão, serão admiradas. Assim minha filha alguns dirão: como é que pode?

Quando minha filha saiu (visto que ela não nasceu! Pois estava praticamente morta e sem respiração) na barriga de sua mãe e foi levada a UTI durante 11 dias a médica afirmou, ainda na sala do parto: “Deus quer essa menina viva. Só pode ser isso.” Tal era a gravidade de seu estado e o descrédito de que ainda pudesse haver vida nela. No próximo mês, porém,  ela completará 06 anos e cresce completamente sadia a despeito de tudo o que sofreu e contrariando toda a lógica médica e científica. Ou seja, tal qual aquela palmeira, eu pergunto a Deus:”como é que pode ela ter sobrevivido…”

O que aquela palmeira me ensina? A mesma coisa que o nascimento de minha filha me ensinou, a mesma coisa que as tempestades pessoais e familiares já me ensinaram e tantos outros fatos da vida: que quem deseja viver de forma determinista entrará num estado de frustração absoluto visto que “as voltas” que o mundo nos impõe são absolutamente naturais. Nós é que insistimos em buscar querer que ela seja linear e administrável. O desafio é caminhar nela – sabendo das curvas que estaremos enfrentando – dependendo daquele que É a vida. Deus – que não pode ser compreendido e não enquadrado – é a vida. Por isso, viver é encontrá-lO nas curvas que a compõe.

Japaratinga, AL, Janeiro 2011

Uma palmeira que contraria toda lógica humana

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