Um espaço para sermos …circunstancialmente…

5/9/2007 13:30:38
 Tales Messias
 

“Só eu sei as esquinas por que passei, só eu sei.

Só eu sei. Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar, sabe lá.

… Só eu sei os desertos que atravessei, só eu sei.

Sabe lá, o que é morrer de sede em frente ao mar, sabe lá, sabe lá”

Djavan

 

Em tempos de imensa banalização da amizade deve-se demorar a chamar “amigos” de amigos.

Hoje, todos “são” e dizem ser “amigos”.

São “amigos” quando se conhecem apenas em ambientes de trabalho.

São “amigos” quando dividem alguns momentos de atividades comuns.

Tornam-se “íntimos” quando perguntados se nos conhecemos.

Se na rede virtual, podemos ter centenas de “amigos” – até mesmo “fãs” – mesmo que eles sejam tão distantes que não percebam quando estou mentindo sobre quem sou e como estou.

Todos, repentinamente, são “amigos” e podem “ter amigos”.

Isso dura por instantes. Até que se descobre que até as reais amizades eram virtuais.

Às vezes, porém, persistem por anos. Nesses casos, a descoberta traz consigo dor, decepção e solidão. Mais ainda, medo de novamente voltar a crer.

Deve-se demorar a chamar “amigos” de amigos.

Como já se disse, “amigos são aqueles com quem se pode ser o que se realmente é, e ainda assim eles não nos rejeitam”.

Amigos não condenam, pois se vêem como iguais. Muito menos julgam. Pois sabem que se condenariam nos próprios julgamentos.

Amigos não se escandalizam, pois reconhecem ser potencialmente capazes de tudo quanto o outro faz.

Amigos não nos vêem de cima. Eles se abaixam para que nos apoiemos.

Amigos não são eternamente concordantes. Pois eles nos complementam.

Amigos não trazem homogeneidade. São diferentes de nós, a fim de que a vida tenha várias cores.

Amigos não passam pelos mesmos desertos que nós. Mas reconhece a dor de cada deserto distintamente.

Amigos não vulgarizam nossas dores. Estimulam as lágrimas crendo no futuro consolo.

Amigos não se afastam com a falsa desculpa que querem “respeitar nosso espaço”. Estes que assim dizem nos deixam sós justamente quando temos por companhia apenas nossas sombras.

Amigos sabem que nem sempre se ri. Mas, luta para que esse tempo se prolongue.

Amigos não buscam companhia apenas. Buscam ser companheiros.

Amigos não se comunicam com palavras apenas. Elas são pobres diante da comunicação que existe em uma amizade.

Amigos não acertam sempre. Erram. Nos decepcionam. Para que exercitemos o perdão.

Amigos não se aproximam pensando em romance. Seria aproximar-se para benefício próprio. Egoísmo velado. Mesmo que eu só creia em romance verdadeiro quando um casal melhores amigos são.

Amigos não “lembram” de ligar, ou de “enviar e-mail”, como alguns dizem. Eles não lembram de esquecer mesmo quando distantes.

Amigos não perguntam “se estou bem”. Eles percebem…e logo perguntam “por que não estou bem”.

Amigos não vão e vem. Qual ondas. São perenes e firmes. Qual raízes.

Amigos não nos aprovam em tudo. Pois desejam sabedoria e felicidade mais do que vulgaridade e prazer. 

Deve-se demorar a chamar “amigos” de amigos.

 Mas, achando-se estes poucos. Nunca são muitos (Isso é virtual!).

Chamem-no de amigo. Chamem-no de irmão. Chamem-no para perto. Chamem-no.

Ele estará.

Comentários em: "DEVE-SE DEMORAR A CHAMAR “AMIGOS” DE AMIGOS" (1)

  1. carine disse:

    amei!

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