Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Agosto 2011

Ontem fui a uma competição de natação. De crianças e pré-adolescentes. Me dei conta que uma daquelas era minha filha. Nadando?! Já competindo?! E enquanto filmava ela no pódio (2º lugar no revezamento!) não a reconheci…

Não a reconheci nem um momento.

Ontem, assim que nasceu,  ela foi levada para a UTI. Ficou lá por vários dias. E a cada noite a pediatra nos dizia: “pai e mãe, vão para casa mas não posso prometer nada. Estejam prontos para o pior”. Isso foi só ontem! Ou antes de ontem…

Enquanto aqui escrevo a escuto lendo em voz alta sua tarefa da escola: ler um livro sozinha… E ontem ela sequer andava. Sequer sorria. Sequer comia. Nem bebia.

Cada vez mais sinto um ontem muito perto do hoje. E o amanhã cada vez mais se torna hoje também. Fundiram-se. Não há mais hiato entre eles. O hoje não é mais ponte entre o ontem e o amanhã. Num piscar tudo o que era futuro se descortina.

Imagino-me ao acordar casando minha filha. “Separando-me” dela. E ela casando-se cada vez mais com a “vida”. Sem nosso consentimento. Sem o meu, pelo menos. Um casamento à revelia do pai. Com um noivo que sequer me pergunta o que eu desejo. O que eu aprovo. Em que velocidade aconselho. Para qual direção a oriento. Não! Ele quase comandando a relação. E ela, quase passiva, submetendo-se…já entendendo ser impossível deter a vontade do noivo.

Por vezes tenho medo. Em outros, tenho muito medo…

Medo de que os segundos do ontem e de hoje não estejam guiando ela para os minutos do amanhã. Medo de me tornar independente dela. De não ter mais a mão dela para me guiar. Para me limitar. Para me aconselhar. Sim, pois ledo engano dos pais imaginarem que eles é que limitam os filhos, os aconselham e os guiam. Não é assim. Não nessa uni-direção pelo menos. Pois são eles, os filhos, com sua presença que nos ensinam a ser pessoas, a ter limites, que nos desencorajam a atitudes insanas, que trazem esboço para aquilo que devemos ser. Para eles!

Outras vezes tenho orgulho.

Como ontem, junto a uma piscina semi-olímpica… Orgulho de vê-la sendo ela. Só. Com marcas e sinais nossos. Com inevitáveis influências. Mas, buscando ser ela.

Outras vezes tenho planos.

Sim, pois assim como o tempo se impõe sobre ela. Também assim deve estar sendo comigo. E eu, passivo, me rendo a ela. E ali…a cada braçada dela…impressionado com sua mutação tão rápida…olhei pra mim. Mas, mais uma vez não me vi. Difícil isso. Acho que para mim mais do que para os demais. Mas, mesmo sem me ver, me imaginei: devo estar diferente de anos atrás, devo estar pensando em profundidades que nunca imaginei estar, em piscinas mais escuras do que imaginei que pudesse estar.

O problema é que se eu não exercitar o me enxergar, não será perceptível a minha mudança. O perigo? É estar nadando em modais errados. Em torneios infrutíferos. Buscando pódios ilusórios. Xiii…já estive nisso. Lembrei agora. Várias vezes estive mergulhado em ilusões e piscinas vazias. O que me livrou delas foi a reflexão. A auto-consciência de onde estou. De como sou. E saí dessas águas devido a isso. (Na verdade não saí. Fui tirado de todas elas. Por mãos divinas).

Nossa tendência (e a dos outros. Comigo acontece frequentemente…) é buscar por nós na mesma casa onde morávamos. Não lembramos que já não estamos lá. Nos mudamos. Faz tempo. Muito tempo.

Certo dia, num shopping, encontrei um antigo “amigo” numa escada rolante. Ele descia e eu subia. Devido a isso, só deu tempo dele me dizer: “continuo esperando você lá”. Eu apenas sorri… “O que ele quis dizer com lá?”, fiquei me perguntando. Depois lembrei e concluí: eles continuam me esperando onde já não estou. Não notaram que me mudei. E faz tempo…

Meu desafio? Perceber para onde estou indo no ontem. A fim de que meu amanhã continue sendo de mudanças conforme defino meu hoje.

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