Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Família Real chegando ao Brasil. Ano:1808. Todos os moradores esperavam ansiosos. Na mente da maioria, muita expectativa. Nunca antes haviam visto uma família real. O povoava a mente deles é o mesmo que povoa a nossa quando se fala em realeza, príncipes e princesas, reis e rainhas. Esperamos beleza, distinção, elegância, riqueza. Tudo sinônimo de família real.

Porém, na chegada da família real portuguesa ao Brasil o cenário foi bem diferente. A viagem de Portugal ao Brasil durou 03 meses. Nestes, a família real sofreu muitas náuseas, fome devido à escassez de comida, sede pois a água não poderia durar 03 meses, cansaço devido às péssimas acomodações da frota já desgastada e… doenças: o rei com erisipela e as mulheres infestadas de piolhos devido a uma infestação ocorrida nos navios.

Resultado: grande decepção! Essa foi a primeira reação de toda uma população que aguardava ansiosa a descida da família real dos navios. A multidão viu desembarcar um rei gordo, que mal conseguia andar devido à erisipela. As princesas todas carecas devido aos piolhos. As roupas velhas e amarrotadas devido à viagem. Os aspectos físicos de todos muito ruins, devido ao cansaço e desgaste da viagem. E a rainha…louca…decidiu nem descer do navio…ficou por lá vários dias…até que decidiu descer mas mesmo assim muito abatida e fraca, teve que ser carregada sentada em uma cadeira.

Por tudo isso a primeira reação foi grande decepção!

Sabe qual foi a segunda reação? Não? Qual a reação dos brasileiros diante de qualquer estranheza sendo esta vinda de pessoas – ou grupo – reconhecidamente mais nobre, mais famosa, mais rica ou de classe social mais alta? Imitação!! Isso mesmo. As mulheres do Brasil julgando que exibirem uma careca devia-se ao fato de ser uma moda européia puseram-se a cortar o cabelo e ficaram carecas de um dia para o outro.

Digno de riso? Foi minha reação também… até que comecei a perceber as semelhanças entre esse fatos e inúmeros outros que acontecem até hoje:

– De onde vem o protótipo da beleza como sendo mulheres magérrimas com aspecto de um esqueleto? Não vem da imagem nobre das modelos e manequins?

– De onde a onda de silicone e cirúrgias plásticas senão das “dondocas” em busca de um corpo aceitável a elas próprias?

– De onde a moda do tabaco, do cigarro, senão da influência do cinema americano que ilustravam os galãs com elegância portando cigarros e charutos?

– De onde a tendência infantil de utilizarmos os mais ricos – ou artistas – como modelos de comportamento?

Quando adolescentes, entende-se isso. Buscamos uma referência. Estamos em processo de busca de nós mesmos. Estamos nos formando como pessoas. Há uma natural tendência de se buscar no outro – alguém que admiramos – um modelo de como desejamos ser.

Adulto não. Ou não deveria ser. Mas, é. Não todos. Mas boa parte. Aquela cena no Rio de Janeiro, em 1808, me fez pensar…continuamos da mesma forma. Imitando os estrangeiros…imitando a Classe Social a que não pertencemos … imitando o artista que admiramos …imitando. No fundo uma enorme afirmação de que não somos quem gostaríamos de ser. Não temos o que gostaríamos de ter. Um complexo quase coletivo de inadequação, de não aceitação e de inferioridade. Foi assim na vinda da família real portuguesa. É assim hoje na realidade brasileira.

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