Um espaço para sermos …circunstancialmente…

“QUASE”…

TALES MESSIAS FERREIRA

Hoje longe – com o desejo de continuar assim – do meio religioso (religiosidade nesse caso = ao conjunto de dogmas, rituais e regras instituídos pelos sistemas e organizações religiosas com o fim de ditar o que significa e o que não significa espiritualidade e vivência cristã) aqui escrevo sobre um texto que sempre me despertou muita atenção.

Diz a Bíblia que num certo dia Jesus avistou seus seguidores navegando com muita dificuldade. Uma tempestade assolou e castigava o barco em que eles estavam. Jesus, contrariando a lógica e expectativa humana, vai ao encontro deles não de barco…mas andando por sobre as águas. O detalhe que mais me chama a atenção (e eis porque não gosto de leitura dinâmica: sou ligado aos detalhes) é que quando Jesus chega perto deles…ele faz menção de que vai passar adiante. Ele insinua que não irá parar. Vai passar. Vai embora sem socorrê-los. Nesse instante, um deles – Simão Pedro – grita…e ele então refaz seu caminho em direção a eles.

Gente..fosse isso comigo eu pensaria em tanta coisa: “ele tá cego?”…”não está nos vendo aqui?”…”Pra que veio…pra passar e ir embora?”…Por que ele ia passar…não se importa com minha angústia?”…

Esse texto sempre me enculcou…achava estranho…esquisito Jesus fazer isso…

Até que com o tempo – e certas coisas só ganhamos e entendemos quando alguns cabelos brancos se instalam em nossa cabeça…ou caem -entendí que nosso excesso de confiança e dependência não nos amadurece. Que a sensação de desinstabilidade, de insegurança, de medo, de abandono até, de não ter ninguém com capacidade de nos acudir é extremamente pedagógica. Aquele súbito momento de não haver socorro é catalisador ao amadurecimento.

Os “quase” de nossa vida me ensinaram muito. Assim que casei, “quase” morri sufocado ao me alimentar. Eu estava sozinho. Pois minha esposa estava no banheiro. Eu, no quarto, sem conseguir emitir nenhum som…já estava de joelhos…sem força e ar…em minha mente lembro perfeitamente de ter pensado “estou morrendo”…num último momento puxei instintivamente ar com tanta força que isso emitiu um som…minha esposa saiu do banheiro e me viu de joelhos…buscando algum ar.

Alguns anos depois minha filha, em seu nascimento, saiu da barriga completamente “morta”. A médica olhou-me imediatamente após tirá-la assim. Eu – como assistí todo o parto – apenas acenei com uma das mãos para ela um gesto para que continuasse…eu havia entendido que ela estava morta. A médica esperou de mim alguma reação mais emotiva…eu apenas acenei…com a outra mão acariciava a testa de minha esposa. Minha filha, completamente preta arroxeada, estampava um olhar fixo em nada, vazio, sem respiração, boca aberta com a língua de fora dependurada, braços caídos ao lado do corpo. Morta. O silêncio pairou na sala de cirurgia. O choro esperado não veio. Em minha mente já havia entendido…minha filha morreu…e morreu hoje…posto que mexeu-se pela manhã…demoramos muito para o parto. Repentinamente ouviu-se um fino som parecendo um gemido saindo dela…todos correram…entubaram ela…e a levaram para a UTI. A médica, sem entender nada, imaginando estranho a esta altura existir vida ali apenas conseguiu dizer; “esse é o choro mais lindo que já ouvi na minha vida”. Na verdade, ela quis dizer o mais inesperado. O já não aguardado. Ela parecia morta… no quarto essa mesma médica nos disse “Deus quer essa menina viva…” e assim ela está até hoje…

E outros “quase” enfrentei em minha vida. Um “quase” final de casamento. Que representou anos depois – hoje – num recomeço na verdade. Quem de fora olhasse diria “Já acabou”…mas era apenas um “quase”…

E outros..outros…outros…

Não sou infantil de achar que serão “quase” a vida inteira. Em alguns momentos terei que enfrentar tragédias de fato concluidas. Concretizadas de fato.

Mas, hoje, olho para trás e entendo o gesto de Jesus em fazer menção que passará adiante…é quase um “faz de conta” que vou passar…

É que estes momentos foram impressionantemente mais férteis do que todos os outros em que já estive. Mais pedagógicos. Mais capazes de me fazerem enxergar minha própria fragilidade e finitude. Deram-me humildade. Ensinaram-me quem sou de fato. Que muita coisa não conseguirei administrar.Fugirá ao controle. Trará medo. Ansiedade. Insônia. Me fará olhar pra Deus de cabeça baixa…silente…dependente. Me ensinaram a orar sem palavras.

Estes “quase” nos formam. Moldam. Não emolduram como a religião faz. Ao contrário, nos expõe. A nós mesmos. E nos faz mais do que nunca olhar para Deus.

 

Comentários em: "“QUASE”…" (2)

  1. Simone Muniz disse:

    Talles ,louvado seja Deus por tão sábias palavras.
    Um abraço

  2. Newton Messias disse:

    Belo texto, Tales.
    Que esses quases nos levem com certeza a depender mais de Deus.

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