Um espaço para sermos …circunstancialmente…

ImagemToda esta semana o tema nos noticiários e rádios tem sido enfaticamente a morte de um jovem torcedor, no estádio do Arruda, em Recife. Vítima de uma ação assassina de pelo menos três jovens que jogaram latrinas (privadas) de uma altura de 30 metros em direção a multidão que saia do estádio após assistirem a um jogo de futebol.

Este fato tem sido insistentemente divulgado na mídia. Como exemplo da violência em que vivemos.

E, continuando nesta ênfase, quero apenas registrar minha opinião. Não pontualmente…mas de forma generalizada…

Este fato, segundo vejo, repercutiu devido a duas causas fundamentais:

1) Ocasionou morte

2) Foi amplamente divulgado

Não houvessem estes dois fatos o ato não ganharia repercussão alguma.

Por isso – repito: de forma geral – quero afirmar o que penso sobre tudo o que temos visto:

Uma nação que convive com uma violência cultural não colheria algo diferente do que temos visto: pessoas sendo linchadas devido a um boato na internet (como foi visto esta semana), privadas sendo lançadas com o intuito de matar, pessoas sendo mortas devido a brigas e desentendimentos no trânsito, pais que matam os filhos envenenados. Tudo isso, notícia DESTE mês.

Tudo isso são frutos. São consequências. São resultados. É produto final.

Temos convivido de forma pacífica e passiva com diversas formas de causas à esta violência que sequer notamos seus perigos. São fornos onde o fermento da violência está crescendo. São sementes. São adubo para tudo o que temos visto.

Cito alguns:

– Família: a luta (quase um foco obsessivo!) da mídia por descontruir famílias é algo inclusive repetitivo. O que as novelas atuais insistem em mostrar são, todo o tempo, famílias se descontruindo. Terminando. Relacionamentos sendo – constantemente – rompidos. Os motivos: diversos. Tudo vale a fim de que haja um prazer no autor em se mostrar relacionamentos finalizados.

– Convívio rotineiro com a violência fria: utilizando o mesmo exemplo em foco (o futebol) fico abismado quanto à paixão quase religiosa de alguns torcedores por seus times. Não me refiro apenas a torcidas organizadas. Refiro-me até a amigos meus. Leio facebook de alguns e vejo uma paixão religiosa de algumas pessoas por seus…times. Isso é irracional ! Isso não pode ter razão humana…não pode. Após vitórias de seus times não se poupam xingamentos, ofensas, escárnios. Pior, os ídolos são os jogadores que incitam a população a isso. Tudo pode ser dito. Tudo. E a desculpa final é: “no futebol é assim mesmo”. Não é. Não era, pelo menos. Isso, pouco a pouco, vai se criando uma multidão apaixonada numa intensidade acima do normal, acima de uma racionalidade. E essa paixão tem um limite muito tênue para ações e palavras de ofensa pela causa de uma…brincadeira (que é isso que o futebol é! 10 homens de um lado e 10 do outro tentando colocar uma bolinha dentro de um quadrado, com os pés. E dois, tentando impedir isso com as mãos. Ou futebol de uma forma bem simplória não é apenas isso ?).

– População desiludida e sem grandes causas – Não se crê mais em nada ! Ou quase nada. Os políticos…não quero demorar a falar neles. Vota-se sem paixão. Vota-se sem opção. Vota-se buscando derruba alguém não por crença em um outro. O momento é de completa desilusão nos políticos e na política. Na religião, tudo virou um grande circo (e aqui me refiro mais enfaticamente na fé evangélica que é a fé do povo mais pobre e humilde no nosso país): uns bobos ricos animando e enganando (qual mágicos) uma plateia que – lá no fundo – sabem que aquilo tudo é uma grande palhaçada (qual circo !) sem sentido. Que irão de ônibus ou a pé para casa enquanto os pastores voltam para casa em seus grandes veículos. E, na grande maioria deles, eles possuem um mero curso de Teologia (baixaria em teologel…ops). Como não seriam bons profissionais no mercado decidem ser (são vocacionados por Deus ?!) pastores. E, quando podem, ainda empregam sua família na igreja também. As crenças religiosas – repito: generalizando-se – desiludem e trazem mais descrenças do que fé. Resultado de tudo isso: um povo sem ter onde depositar sua fé. Sua paixão. Suas crenças. Gente sem causa. Gente onde as emoções não podem ser canalizadas. Não há ideias. Não motivo sério onde focar sua fé. Deslocam essa necessidade religiosa para outro “campo”, para outra “área”. Nessa outra, não se prega paz, mudança de vida, engajamento político e racionalidade. Nessa outra geralmente prega-se competição, vitória ou derrota. E isso, aliado á paixão, acirra-se na alma.

Nem preciso citar outras causas: desemprego, educação, condições de moradia etc.

Diante de tudo isso vejo hoje cenas de barbárie se tornando rotina em nossa vida. Conseguimos aplaudir um esporte como MMA que nada mais é que a importação das cenas da antiguidade onde guerreiros eram colocados em arenas para que degladiassem até que um deles fosse morto. Voltamos a barbárie. E sorrimos. E fazemos isso…comendo pipoca e tomando cerveja. Rindo. Até que um dia a violência bate em nossa casa…nos toca…sentimos em nossa casa. Nesse dia, vestimos camisa com rostos dos violentados estampados e saímos em passeata pela paz. Fazemos isso num sábado. Mas…a tarde…daquele mesmo sábado…vamos ao facebook xingar alguém e sentamos no sofá para torcemos pelo minotauro, para que acabe com alguém e deixe-o sangrando. Com nossos filhos do lado. Inconscientemente o que eles estão absorvendo?

De que somos assim mesmo…somos e seremos…infelizmente.

 

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