Um espaço para sermos …circunstancialmente…

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Se fosse com uma de minhas filhas…

Olho para a história daquele menino, tão cheio de demônios que eles se intitulam legião, que vivia longe de casa, sujo, que dormia em sepulturas, cortado, sangrando, odiado e zombado pela cidade.

E penso… “se fosse uma filha minha”. E, se, após tanto amor, carinho, paixão e amor misturados eu visse uma filha minha tornar-se em um ser-monstro, que não mais me conhecia e nem eu a ela.

O texto diz que Jesus finaliza sua conversa com o menino dizendo:  “volte para sua família e conte a eles tudo o que Deus fez por você”.

Como seria eu chegar em casa, após um dia de trabalho – tristonho por, no caminho de casa, lembrar-me de minha filhinha, dos beijos que não mais pensaria em ter, de esperadas notícias sobre destruição, prisão e morte – e, ao abrir a porta, percebe-la em meu sofá, sentada (com cheiro de café no ar). Ela está…vestida. Sentada. De banho tomado. Olhos cheios de lágrimas. Mas há um sorriso nos seus lábios.

Ela se levanta, aproxima-se de mim, e apenas me abraça, soluçando. Beija meu rosto e diz “voltei, papai”. Eu, com muitas lágrimas apenas a ouço dizer: “um Jesus me libertou deles. Eles não moram mais em mim. Saíram. Estou livre, papai. Não há mais gritos na minha alma.”.

Eu, devagar – sob o peso da notícia – ajoelho-me. Aos prantos, rosto no chão, digo apenas: “obrigado, Jesus. Obrigado, Deus. Obrigado!”.

Tomo café com ela. Não consigo falar. Jantamos juntos. Toda a família. De vez em quando um choro irrompe no jantar. Mas junto com um sorriso. No coração, uma alegria que só quem é Pai saberia descrever e sentir. E uma gratidão que me faz orar todo o jantar, em silêncio, “obrigado, Senhor”.

Bem tarde, passo na porta do seu quarto. Observo-a ainda surpreso. Ela dorme. Brisa de paz no quarto. Um lençol a cobre. Suspiro de sono profundo. Minha filha, em casa.

Vou a sala. Ajoelho-me, sozinho, no escuro da sala, e sussurro para Deus: “o Senhor me ouviu. Obrigado, papai”.

Tales Ferreira, 25/12/2017

Baseado em Lucas 8.27-39, imaginando o encontro de sua mãe ou seu pai, com aquele menino.

E, quando desceu para terra, saiu-lhe ao encontro, vindo da cidade, um homem que desde muito tempo estava possesso de demônios, e não andava vestido, nem habitava em qualquer casa, mas nos sepulcros.

Jesus o despediu, dizendo:
Torna para tua casa, e conta quão grandes coisas te fez Deus. E ele foi apregoando por toda a cidade quão grandes coisas Jesus lhe tinha feito.
Lucas 8:27-39

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Carregando a cruz de Cristo

“Certo homem de Cirene, chamado Simão, pai de Alexandre e de Rufo, passava por ali, chegando do campo. Eles o forçaram a carregar a cruz” Mc 15.21

Esse é um versículo pouco lembrado sobre a crucificação de Jesus. Um homem que apenas passava por ali foi convocado a levar a cruz de Jesus. Era comum, dizem, fazerem isso. Convocar alguém do povo para que ajudasse o condenado a levar sua cruz. Simão foi o escolhido.

Nunca mais se ouviu falar nesse Simão. Não há mais nenhuma referência a ele.

Mas… muitos anos depois, o apóstolo Paulo finalizando o livro de Romanos diz: “Saúdem Rufo, eleito no Senhor, e sua mãe, que tem sido mãe também para mim”.

Há, segundo biblistas, grande possibilidade de que esse Rufo seja aquele que marcos afirma ser filho de Simão. Sendo, tudo indica que aquele rápido encontro de seu pai, Simão, enquanto ele passava, com um condenado chamado Jesus de Nazaré, mudou sua vida. E de sua esposa. E de, pelo menos, um dos filhos: Rufo. Aquele caminho carregando a cruz, ouvindo os insultos que ele recebia, vendo como ele reagia, assistindo no caminho seu encontro com sua mãe, ouvindo, (talvez) o diálogo dele com Aba e com os ladrões crucificados ao lado…Mudaram para sempre aquele homem que passava por ali, Simão. Ele volta para casa. E, imagino apenas, que volta tão “engravidado” daquelas cenas e daquele homem que se torna seguidor de Jesus. E também sua casa. Sendo o mesmo Rufo, como afirmam os estudiosos de que há grande possibilidade, torna-se um testemunho do que acontece quem encontra-se com nosso Senhor, o Cristo, Jesus de Nazaré.

simon800wh

Que nenhuma raiz de amargura brote

…que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando muitos…Hb 12.15

Caminhando hoje, deparei-me com essa cena:

Não sei se é possível distinguir a foto mas é um veículo, completamente coberto de plantas, raízes e folhas. As plantas já o “engoliram”.

Acredito que disso trata o versículo acima. No poder que tem uma amargura de, dia a dia, pouco a pouco, ir envolvendo nossa vida. Corroendo. Fixando raízes. Transformando nossa vida em um novelo de raízes, folhas e troncos até que mal se perceba mais quem de fato somos.

Daí o perdão…aquele que nos liberta dessas raízes. Aquele que nos desvencilha daquilo que nos impede de caminhar, daquilo que nos impede de sermos quem somos, daquilo que nos impede de avançar nos caminhos que Deus traçou para nós. Perdão. Difícil as vezes decidir por ele. Chamado por alguns de fraqueza. Contudo, poderoso para nos fazer sair da ociosidade, de uma vida estacionada, estagnada.

Perdoar é ficar com o prejuízo para si. Sim, porque perdoamos e herdamos a dívida. Isso porque perdão é fruto de graça. E graça é fazer algo em favor de quem não merece. Por isso, quando decidimos perdoar ficamos com a conta das ofensas, dívidas, palavras mal-ditas . E lançamos essas dívidas para Deus. Ele sabe bem o que é isso. Ele é Aquele que, na cruz, nos ensinou o perdão. E ficou com a “dívida” da morte. Perdoe.

Ganhar o mundo mas perder a alma – YouTube

Ganhar o mundo mas perder a alma – YouTube

Deprimente…

Deprimo-me quando vejo que ontem foi votado e aprovado no congresso a redução da maioridade penal.

Deprimo-me ao ver no jornal um grupo de evangélicos que apedrejaram uma criança por ser esta da umbanda.

Deprimo-me ao ver o esforço e energia da igreja evangélica em golpear o movimento LGBT

Deprimo-me quando vejo uma bancada dita evangélica que esforça-se por causas próprias, ligadas a sua religião e, claro, aos seus eleitores.

Deprimo-me ao ver um deputado gastar energia propondo mudanças no livro dos cristãos, na Bíblia

Deprimo-me porque olho para um pais em constante desconstrução…com crianças morrendo…com jovens sendo estupradas…com direitos descumpridos…com corrupção completamente disseminada em todos recantos e cantinhos da sociedade…com uma igreja evangélica inerte (de forma geral)…com pastores comprados…com seminários dispensáveis…com universidades públicas sucateadas…com uma política cada vez mais polarizada e maniqueísta…com ruas cada vez menos arborizadas e desertas de crianças…

Deprimo-me. E hoje, nessa manhã, talvez mais que outros. É que olho para minhas filhas e penso:

– que país deixarei para elas?

– que igreja frequentarão?

– que educação receberão?

– que qualidade de vida terão?

Deprimo-me. E oro.

Deus, nas entrelinhas

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Deus, geralmente, escreve nas entrelinhas. Nós é que só conseguimos tentar vê-lo nas linhas. Somos objetivos, lineares, temporais. Daí nossa tendência à revolta, à impaciência. Preferimos aqueles que “desenham” em nosso plano. A estes, incluímos até Deus…

Tales M Ferreira

junho 2014

 

 

 

Graça

 

Tales Ferreira,                                                                                  19 de abril 2014, Praia de Peroba – Alagoas

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Com muita frequência nos referimos a ela como um ente. Alguém. Não como característica, qualidade de Deus. Mas como um ser independente. “Foi a graça que fez isto”…”Pela Graça conseguimos tal coisa”…etc, são alguns exemplos de frases ditas.

Graça, porém, é uma qualidade que caracteriza Deus. Graça é um bem imerecido. Um favor recebido sem que tenhamos tido nenhum merecimento em seu recebimento.

Mais que isso…Graça é uma atitude injusta de um Deus justo. Sim, Graça é a maior ação de injustiça de Deus!

Visto que somos perdoados sem que tenhamos nenhum motivo para isso.

Visto que fomos perdoados através da ação mais injusta de Deus na história quando entregou seu filho, sem pecado, por nossos pecados.

Visto que sou perdoado, todo dia – sem exceção – sem, em sequer nenhum dos dias, ter sido merecedor.

Visto ser amado por um Deus Amor sem que nenhum bem houvesse em mim.

Visto ter sido feito justo sendo que não há “nenhum justo sequer”, o que me inclue.

Visto ter as misericórdias de Deus renovadas a cada dia sem que, em contrapartida, eu esteja sendo mais misericordioso diariamente.

Por tudo isso, a Graça de Deus é injusta. O que há de mais injusto!

Olhando para o momento da crucificação, onde um dos ladrões, reconhecendo em Jesus ser o Messias, ele é, então, perdoado. Praticou, provavelmente, uma série de ações contra a sociedade durante sua vida. E, sem restituição alguma, foi perdoado. É justo?

Tantos são os exemplos…tantos…

Graça é uma qualidade, uma característica de um Deus que define-se como Amor. Ele, só Ele, sendo, consegue cometer tal injustiça devido a sua Graça.

E, “pela Graça de Deus sois salvos. Isso não vem de vós, é um dom, um presente, uma dádiva de Deus”.