Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Cabelos Brancos

Tales Messias Ferreira

Manhã de 05 de Junho de 2014

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Aprendi a admirar cabelos brancos. Neles, implicitamente (no geral, claro), estão inseridos virtudes que não encontramos noutra idade.

Neles, há uma capacidade cada vez mais rara de encontrar: não viver sob expectativas. Os anciãos já não vivem para alguém. Para impressionar. Com intuito de causar alguma reação alheia. Não. Eles se libertaram da pressão da opinião publica. Com isso, são autênticos. São livres para serem e falarem mesmo que ninguém os escute, siga ou dê atenção. Eles – diante de nossa cultura homicida ante os mais velhos – estão acostumados à desatenção. A não ter eco em suas palavras. Livres, por isso, para simplesmente serem livres da opinião alheia.

Uma outra característica que muito admiro é a inutilidade. São inúteis. E isso é uma virtude! Como assim, você deve estar se perguntando. É que vivemos numa sociedade tão utilitária, tão funcional que apenas pensamos numa pessoa, num ser humano, enquanto ele é útil. Enquanto ele funciona para a sociedade…ou para você. Quando ele passa a ser simplesmente gente. Muitos já aposentados. Quando são somente pais, avós e avôs, marido e mulher. Quando somente são amados pelo que representam. Não pelo que fazem. Nesse estágio – de inutilidade na visão social – eles são mais bonitos que nunca. Finalmente eles são só pessoas. Não mais se escondem atrás de paletós, de mesas, de diplomas, de currículos. Finalmente se tornam pessoas. E, de amor desprentesioso, é o que esperam. Não mais trocas. Não mais barganhas. Amor. Por isso considero uma virtude, nesse caso, a inutilidade. Não faço um convite à inutilidade. Apenas a separo aqui de nossas relações de amor. Utilidade e amor não se coadunam.

Que um dia, já velho, eu veja o mesmo olhar nas minhas filhas. Que ao me olharem elas tenham o mesmo brilho quando olham para mim hoje. Isso, quando sequer eu puder fazer nada. Quando eu puder falar e expressar tudo o que penso. Sem rédeas sociais. E quando funcionalmente eu não mais servir à sociedade capitalista e globalizada. Mas, que para elas, haja brilho e amor. Pelo que serei/sou…nunca…nunca…pelo que posso oferecer em troca.

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ImagemToda esta semana o tema nos noticiários e rádios tem sido enfaticamente a morte de um jovem torcedor, no estádio do Arruda, em Recife. Vítima de uma ação assassina de pelo menos três jovens que jogaram latrinas (privadas) de uma altura de 30 metros em direção a multidão que saia do estádio após assistirem a um jogo de futebol.

Este fato tem sido insistentemente divulgado na mídia. Como exemplo da violência em que vivemos.

E, continuando nesta ênfase, quero apenas registrar minha opinião. Não pontualmente…mas de forma generalizada…

Este fato, segundo vejo, repercutiu devido a duas causas fundamentais:

1) Ocasionou morte

2) Foi amplamente divulgado

Não houvessem estes dois fatos o ato não ganharia repercussão alguma.

Por isso – repito: de forma geral – quero afirmar o que penso sobre tudo o que temos visto:

Uma nação que convive com uma violência cultural não colheria algo diferente do que temos visto: pessoas sendo linchadas devido a um boato na internet (como foi visto esta semana), privadas sendo lançadas com o intuito de matar, pessoas sendo mortas devido a brigas e desentendimentos no trânsito, pais que matam os filhos envenenados. Tudo isso, notícia DESTE mês.

Tudo isso são frutos. São consequências. São resultados. É produto final.

Temos convivido de forma pacífica e passiva com diversas formas de causas à esta violência que sequer notamos seus perigos. São fornos onde o fermento da violência está crescendo. São sementes. São adubo para tudo o que temos visto.

Cito alguns:

– Família: a luta (quase um foco obsessivo!) da mídia por descontruir famílias é algo inclusive repetitivo. O que as novelas atuais insistem em mostrar são, todo o tempo, famílias se descontruindo. Terminando. Relacionamentos sendo – constantemente – rompidos. Os motivos: diversos. Tudo vale a fim de que haja um prazer no autor em se mostrar relacionamentos finalizados.

– Convívio rotineiro com a violência fria: utilizando o mesmo exemplo em foco (o futebol) fico abismado quanto à paixão quase religiosa de alguns torcedores por seus times. Não me refiro apenas a torcidas organizadas. Refiro-me até a amigos meus. Leio facebook de alguns e vejo uma paixão religiosa de algumas pessoas por seus…times. Isso é irracional ! Isso não pode ter razão humana…não pode. Após vitórias de seus times não se poupam xingamentos, ofensas, escárnios. Pior, os ídolos são os jogadores que incitam a população a isso. Tudo pode ser dito. Tudo. E a desculpa final é: “no futebol é assim mesmo”. Não é. Não era, pelo menos. Isso, pouco a pouco, vai se criando uma multidão apaixonada numa intensidade acima do normal, acima de uma racionalidade. E essa paixão tem um limite muito tênue para ações e palavras de ofensa pela causa de uma…brincadeira (que é isso que o futebol é! 10 homens de um lado e 10 do outro tentando colocar uma bolinha dentro de um quadrado, com os pés. E dois, tentando impedir isso com as mãos. Ou futebol de uma forma bem simplória não é apenas isso ?).

– População desiludida e sem grandes causas – Não se crê mais em nada ! Ou quase nada. Os políticos…não quero demorar a falar neles. Vota-se sem paixão. Vota-se sem opção. Vota-se buscando derruba alguém não por crença em um outro. O momento é de completa desilusão nos políticos e na política. Na religião, tudo virou um grande circo (e aqui me refiro mais enfaticamente na fé evangélica que é a fé do povo mais pobre e humilde no nosso país): uns bobos ricos animando e enganando (qual mágicos) uma plateia que – lá no fundo – sabem que aquilo tudo é uma grande palhaçada (qual circo !) sem sentido. Que irão de ônibus ou a pé para casa enquanto os pastores voltam para casa em seus grandes veículos. E, na grande maioria deles, eles possuem um mero curso de Teologia (baixaria em teologel…ops). Como não seriam bons profissionais no mercado decidem ser (são vocacionados por Deus ?!) pastores. E, quando podem, ainda empregam sua família na igreja também. As crenças religiosas – repito: generalizando-se – desiludem e trazem mais descrenças do que fé. Resultado de tudo isso: um povo sem ter onde depositar sua fé. Sua paixão. Suas crenças. Gente sem causa. Gente onde as emoções não podem ser canalizadas. Não há ideias. Não motivo sério onde focar sua fé. Deslocam essa necessidade religiosa para outro “campo”, para outra “área”. Nessa outra, não se prega paz, mudança de vida, engajamento político e racionalidade. Nessa outra geralmente prega-se competição, vitória ou derrota. E isso, aliado á paixão, acirra-se na alma.

Nem preciso citar outras causas: desemprego, educação, condições de moradia etc.

Diante de tudo isso vejo hoje cenas de barbárie se tornando rotina em nossa vida. Conseguimos aplaudir um esporte como MMA que nada mais é que a importação das cenas da antiguidade onde guerreiros eram colocados em arenas para que degladiassem até que um deles fosse morto. Voltamos a barbárie. E sorrimos. E fazemos isso…comendo pipoca e tomando cerveja. Rindo. Até que um dia a violência bate em nossa casa…nos toca…sentimos em nossa casa. Nesse dia, vestimos camisa com rostos dos violentados estampados e saímos em passeata pela paz. Fazemos isso num sábado. Mas…a tarde…daquele mesmo sábado…vamos ao facebook xingar alguém e sentamos no sofá para torcemos pelo minotauro, para que acabe com alguém e deixe-o sangrando. Com nossos filhos do lado. Inconscientemente o que eles estão absorvendo?

De que somos assim mesmo…somos e seremos…infelizmente.

 

Invisíveis…

Tales Ferreira, 30 de abril 2014. Em Recife
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Passamos sempre por eles. Olhamos até. Já até falamos com eles. Mas, sem vê-los…Ouvi-los, só quando a pergunta foi feita por nós. Nos interessa, então, a resposta.

Quase esbarramos neles…mas desviamos.
Quase tocamos neles…mas nos afastamos.
Quase trocamos olhares…mas nos distraímos.
Quase cruzamos na rua…mas mudamos de rota.

São aqueles que todo dia, todo dia, todo dia, nos servem sem nossa gratidão. Nos imploram sem palavra. Pedem atenção, em vão.

Quem são os serventes, os garis, os pedintes, o cobrador de ônibus, o serviço geral de alguma repartição…os simples. Pequenos. Em trabalhos tidos como sem importância. Qual o nome deles? Onde moram? Moram em algum lugar? O que comem? Eles comem? Tem família? Quem são eles…

Pior é quando os invisíveis estão do nosso lado. Andando conosco. Trabalhando conosco. Mais que isso. Acompanhando-nos. Mais ainda…morando conosco. Mais ainda…dormindo. Bem pior.

Invisíveis. Só a nós. Não a Deus. Nunca. Mas, a nós…invisíveis.

ImagemTodos os dias percorro o mesmo caminho. Mesma rotina. Sempre no mesmo horário. Mas nunca ele, o caminho, tem a mesma paisagem. Ele vai mudando de acordo com as estações. Todo dia…

Tales Ferreira

abril, dia 01, numa manhã

 

 

Certas coisas

Imagem“..a vida é mesmo assim. Dia e noite, não e sim” (Lulu santos)

Máscaras cansam. Ser o que se não é para outrem, desgasta-nos. Desgasta-nos interiormente pois tira-nos a identidade pouco a pouco. Com o tempo, tendenciamos a acreditar numa de nossas próprias máscaras. Tal qual o ator que continua atuando e agindo ( e até se vestindo como seu personagem). Isso nos desgasta interiormente.

Exteriormente, no malabarismo de buscarmos mostrar a face adequada a cada situação, vamos também nos desgastando. Isto porque, quando, por alguma razão, ou distração, mostramos a máscara errada numa determinada situação, causamos estranheza às pessoas que desejam (e quase nos obrigam) a sermos e termos aquela determinada máscara num determinado ambiente. Isso nos desgasta perante as pessoas.

O melhor? É sermos. Simplesmente isso. Sermos aquilo que acreditamos. Aquilo que, no íntimo, sabemos quem somos. Isso independe da opinião alheia. Sem, evidente, não nos utilizarmos de nossa liberdade para sermos desrespeitosos e agressivos. Sermos. Livremente sermos. As vezes (o que é sadio !) até descontentes com o que nos mostra o espelho. Mas…aceitando aquilo que somos. E não tentando fazer photoshop antes de nos mostrarmos. Sermos. Isso é libertador. Sem querer ser o que se é hoje, para o resto da vida. Nos transformando. Dia a dia. Mas poder ser o que se é.

Tales Ferreira

Março 2014, noite do dia 26

 

 

2012-12-23 20.12.25“Eu morro de saudades do que era pra viver. E vivo da viagem de reencontrar você. Meus olhos do passado num futuro que nem sei…” (Lenine e Juca Novaes)

Vivemos tentando prender aquilo que não se deixa ser preso. Buscando o que não mais volta. De mão estendida para aquilo que não olha pra trás: o tempo.

Deus me ajude a beijar minha esposa como se fosse da primeira vez. Olhar para minhas filhas como quem deslumbra seus nascimentos. Correr cada dia como se saúde eu não tivesse amanhã. Lesse como se fosse perder minha vista logo mais. Que ouvisse meus pais com a saudade de não mais tê-los. Que tudo…tudo… eu faça não por rotina (desgraçada rotina! Que tem o poder de tornar comum até o que é fantástico…) mas com intensidade, paixão, amor e sentimentos. E, também, que eu não mais faça aquilo que só fazia por obrigação. Que rejeite tudo o que é feito apenas por convenção. Para que eu não tenha saudades do que era para viver…

Tales Ferreira
Manhã de fevereiro 2014, dia 21.

Você é o que?

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Numa noite eu estava em uma igreja evangélica e o pregador afirmou: “nós que somos presbiterianos etc etc etc”.

Eu, então virei para minha filha (com 09 anos) e disse: “Você é presbiteriana?”. Debinha me respondeu “Não sei nem o que é isso…”. E continuei: “Você é batista?” e ela me disse: “piorou. Não sei o que é isso mesmo”. “Anglicana então?”, continuei. Ela: “não. Você está falando de que?”.

Por fim, perguntei: “Você é cristã?”. A resposta dela: “Ah, agora…isso eu sou!”.

Nossa decisão: que nossas filhas entendam o Caminho sem as lentes das instituições religiosas. Mesmo que frequentem, não se deixem definir por elas.