Um espaço para sermos …circunstancialmente…

Textos de terceiros…

EU SOU MUITO COMPLICADO…
Caio Fábio D´Araujo Filho

Sim, sei que sou…

Pois prefiro gastar dinheiro num bom jantar com a família toda reunida… do que pelo mesmo valor comprar o que quer que seja…

Porque se posso invisto em memórias, em oportunidades que os que eu amo nunca mais esqueçam, do que dando presentes…

Pois privilegio qualquer momento/eterno… ao invés de interrompe-lo para tirar uma foto…

Porque gosto mais de trabalhar cedo e fazer tudo que seja minha responsabilidade logo… a fim de ter tempo para o que eu aprecio.

Pois meu prazer maior é dar prazer ao invés de buscar o meu prazer…

Porque prefiro perdoar do que ter razão…

Pois aguento muito contra mim, mas não suposto quase nada quando é contra os outros…

Porque prefiro ouvir a pior verdade… do que viver “feliz” em qualquer fantasioso engano…

Pois escolho sempre o que creio ao invés de optar por aquilo que me dá vantagem…

Porque aguento muito mais esperar os atrasados do que fazer quem quer que seja me esperar…

Pois prefiro a solitude serena do que as festas e as agitações…

Porque gosto mais da minha própria companhia do que da companhia dos muitos e indecisos…

Pois andar sozinho me é mais produtivo do que fazer-me acompanhar de distraídos…

Porque aceito muito melhor ser traído do que viver a dor de trair alguém…

Pois acolho a dor sincera melhor do que os festivais das irrealizações…

Porque aprendo mais só do que ouvindo mil opiniões…

Pois não busco adesões, mesmo quando isso faria a minha vida mais fácil…

Porque para mim qualquer leitura bíblica solitária me edifica mais do que uma reunião de mil especulações…

Pois sou cauteloso embora não sinta medo de nada que não seja racional…

Porque só consigo vestir uma roupa que reflita a minha alma, do que possuir grifes caras que não se comuniquem com a minha existencialidade…

Pois abomino fazer compras, apesar de gostar de ver as pessoas felizes com o que de útil tenham adquirido…

Porque não sinto falta de socialização, mesmo que ame ver as pessoas felizes por se encontrarem umas com as outras…

Pois não sei gargalhar, embora ame sorrir…

Porque não consigo sentir inveja de ninguém…

Pois me alegro com a alegria genuína das pessoas até mais do que da minha própria…

Porque encaro a morte com simplicidade, ainda que entenda a dor dos que não conseguem consolar-se…

Pois gosto de gente humilde muito mais facilmente do que aprecio a companhia dos sofisticados…

Porque não creio nas alegrias do mundo…

Pois não venço quando ganho uma disputa, mas apenas quando alguém entende o que tento comunicar…

Porque prefiro ter um lindo e simbólico sonho noturno do que ler um livro de dia…

Pois prefiro dar meios de compreensão para meios filhos ganharem a vida do que deixar-lhes heranças materiais…

Porque leio na mesma Bíblia há quarenta anos, e não a troca por nenhuma nova impressão de texto…

Pois amo abrir portas para os outros muito mais do que abrir portas para mim mesmo…

Porque quanto mais abro mão, mas enxergo minhas mãos fechadas…

Pois amo saber que alguns entenderam… do que viver da adulação de multidões que nada compreendem…

Porque se me dissessem que o mundo iria acabar hoje… ainda assim esperaria o final de olhos bem abertos…

E por um bilhão de outras coisas… sei que sou esquisito.

Sim, por muitas outras razões é que sei que sou quase totalmente inadequado ao que todos chamam de sadio e de normal…

Ora, é tão grande a minha anormalidade que é melhor eu parar por aqui…

Nele, em Quem busco ser… embora eu seja apenas como sou, ainda que Nele me perceba crescendo todos os dias

PONDÉ E A CORAGEM DE ESCREVER

http://luizfelipeponde.wordpress.com/

Ao ser questionado, no ano passado, sobre os limites que o humor estaria obrigado a respeitar, Paulo Bonfá, apresentador do programa Rock Gol da MTV, reportou-se ao discurso politicamente correto e respondeu que os artistas sentem-se, hoje, menos à vontade para se expressar. E exemplificou: “Não podemos mais falar a palavra saci; agora, para se referir a ele, dizemos que se trata de um afrodescendente portador de necessidades especiais“. A esse fenômeno que inibe e limita o senso criativo o filósofo Luiz Felipe Pondé, deu o nome de “patrulhamento ideológico do bem”, ou “censura da inteligência”.

Para falar a respeito desse e de outros assuntos, Pondé esteve em Sorocaba, na Oficina Cultural Grande Otelo. “Como escrever sem Medo no Mundo Contemporâneo? Filosofia e Literatura a Serviço da Coragem” era o título de sua palestra e nela Pondé discutiu questões como o uso da linguagem e as restrições ao pensamento público. Entrevistado pelo Mais Cruzeiro, recomendou “prudência” aos que se utilizam da escrita como ferramenta de trabalho.

Ele admite que não existe meio termo e que a linha que separa a liberdade de expressão do risco de ferir suscetibilidades é muito tênue. Outra forma de fazer frente ao problema é se valer da “coragem intelectual”. Em tempos de evolução tecnológica, de reconhecimento pela Justiça da união entre pessoas do mesmo sexo e de avanço nas conquistas do movimento negro, Pondé acredita que é mesmo difícil tratar de tais temas sem flertar com a polêmica. A proposta da palestra é falar das formas de evitar o “medo das patrulhas do bem” e sobre como a coragem continua sendo a principal virtude da inteligência pública, da Grécia até os dias atuais. Confira, aqui, trechos da conversa com a reportagem:

 

>> O medo teria sido incorporado ao ato de se expressar?

Existe, sim, um certo medo quando se escreve publicamente, mas acredito que isso seja mais uma constatação de ordem técnica. É preciso saber de onde vem a informação, ou o texto, a quem se destina, e como é recebido. As pessoas, afinal, lêem, assimilam e recebem, se quiserem. Isso, no entanto, não afasta o patrulhamento das ideias. O mundo é perigoso e não convém descuidar da figura do leitor, do ouvinte, do telespectador, sob pena de o seu produto não ser consumido. O medo está aí, inclusive, em função dos desdobramentos no plano jurídico. Eu costumo dizer que existem vários níveis de medo que precisam ser trabalhados.

>> Mas, como trabalhar o medo? Parece não haver um meio termo para se expressar, sem correr o risco de praticar ato ofensivo, ou ser politicamente incorreto…

Não existe, mesmo, meio termo. Ou melhor, tudo é descentrado, envolve um cuidado casuístico. Falar, escrever, se expressar publicamente é flertar com a polêmica. Às vezes, somos obrigados a jogar duro nesse exercício. A linha que separa um terreno do outro é muito tênue, mas deve-se usar de prudência. Pensar cuidadosamente é a melhor forma de trabalhar esse sentimento. Outra, é não perder de vista a importância do debate público a respeito.

>> Parece não haver diferença entre medo e auto-censura…

Há, sim. A auto-censura é um desdobramento do medo. Não são, portanto, a mesma coisa. O medo pode levar, necessariamente, à auto-censura. É o que acontece quando ficamos diante do impasse, de não saber o que e como dizer. É quando tudo paralisa, bloqueia. Aí, sem outra alternativa, não fazemos, praticamos a auto-censura.

>> O Brasil vive um momento pródigo em notícias. Recentemente, o STF reconheceu a legalidade da união entre pessoas do mesmo sexo, o movimento negro alcançou algumas conquistas, caso das cotas, fala-se de assédio moral, de bullyng, de pessoas portadoras de necessidades especiais. Como escrever, falar, sobre esses temas sem resvalar no politicamente incorreto?

É difícil. São temas cifrados. Eu, por exemplo, sou contra a política de cotas, mas a favor do casamento gay. As nuances do debate público são tantas, que é preciso saber abordar cada um desses e muitos outros assuntos sem ferir suscetibilidades. É necessário coragem intelectual para produzir, desprendimento e conhecimento de causa.

>> Por que o medo de se expressar ganhou força mais recentemente? O fenômeno estaria relacionado à evolução tecnológica e dos costumes?

A priori, esse medo sempre existiu. Não raramente romantiza-se a inquisição, ou as posturas fascistas e atribui-se a esses movimentos a responsabilidade pelo medo. Hoje, no entanto, com a internet, as redes sociais, os blogs, as informações circulam com uma rapidez incrível, e chegam a uma gama de pessoas maior ainda. O jornalista vive sob pressão e tem de dar conta da demanda de produzir a informação na mesma velocidade, sem perder de vista a qualidade do conteúdo. E, até por causa da subjetividade, acontece de determinada notícia, informação ser interpretada como ofensiva, agressiva. Logo, o medo tem uma característica de atemporalidade.

>> O que sobra, então, para quem escreve? Usar um dicionário de expressões politicamente corretas?

Essa ideia é perfeitamente factível. Aliás, já existe um dicionário assim. Pouco antes de morrer, o Paulo Francis, que foi um jornalista com quem aprendi muito, escreveu um texto prevendo que as redações iriam se transformar numa espécie de celeiro de comissários do povo. Ele chamava assim aqueles que viriam imprimir a censura jornalística, ou que escreveriam com base em alguns pressupostos, que se sentiriam engessados e amordaçados em nome da patrulha do bem. Aqueles que, no exercício da profissão, pisariam em ovos. Não se pode, portanto, reduzir a importância do debate público. O que fica disso, é que precisamos levar em conta o pensamento, a vontade do receptor, aqueles para quem se produz a informação. O interesse maior desse público é o que deve preponderar e ser respeitado.

O sucesso

A moda é o sucesso. Um famoso conferencista anuncia com letras enormes : “o seu lugar é pódio.” Imaginemos que assim seja. Jogos olímpicos. Corrida de 100 metros rasos. Aí ele diz para todos: “o seu lugar é pódio!”. Os corredores disparam. Só um deles arrebenta a fita. Nas olimpíadas são pouquíssimos os que vão para o pódio. Isso vale para a vida inteira. Então, alguma coisa está errada. O mais provável é que o dito conferencista esteja mentindo para manter-se no pódio à custa da credulidade das pessoas. Quem acredita que o seu lugar é o pódio está sempre estressado, competindo, tentando passar na frente. Quem não tem pretensões ao pódio vive uma vida mais alegre. Não é preciso chegar na frente. Mas há uma seita que anuncia como palavra de Deus: “você está destinado ao sucesso.” Não sei onde descobriram isto. Pelo menos o Deus cristão não promete sucesso para ninguém.

Rubem Alves (extraído do livro Ostra Feliz não faz pérola)

FELIZ NATAL, KAFKA

Luiz Felipe Pondé (Extraído do blog: http://luizfelipeponde.wordpress.com/)

Acho o Réveillon uma festa chatíssima. Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Tel Aviv, e ainda bem que aqui não tem Réveillon. A cidade é patrimônio cultural universal porque tem o maior conjunto arquitetônico Bauhaus do mundo, o que dá a ela um tom entre o blasé (isto é, a soma do cinza e branco típico dos prédios Bauhaus de poucos andares com o desleixo chique característico da população local mediterrânea) e o moderno da primeira modernização, antes de a modernidade virar essa coisa brega de massa.

Tel Aviv é descrita pelos israelenses como sendo “outro mundo”, diferente do resto do país, justamente por seu caráter secular, arredio ao fanatismo religioso que cresce por aqui e aberto à convivência mundana.

Diante desse cenário, sempre que estou nesta cidade, meu pessimismo (que tem sua origem provavelmente em alguma forma de disfunção fisiológica) cede. O desleixo e o ar mediterrâneo, associados ao desespero mudo, embutido no cotidiano de quem se sabe uma espécie caçada, me acalmam. Estranho? Sou estranho mesmo.

Segundo reza uma das lendas sobre Franz Kafka, quando perguntaram a ele se não havia esperanças para o mundo, ele teria respondido: “Esperanças há muitas, mas não para nós”.

De todas as formas de pessimismo, a de Kafka é a única que me assusta. Não temo pessimismos cosmológicos. Não espero nada da vida na forma de recompensa moral (aquilo que a teologia cristã chama “retribuição pelos méritos”).

Antes de tudo porque não sou uma pessoa boa. Raramente me preocupo com os outros, e a África pouco me importa. Nem a fome. Nem as baleias. Nem você.

Não conto com a misericórdia de Deus porque não a mereço. Guerras sempre existirão, e a humanidade faz o que pode para sobreviver ao mundo e a si mesma.

A possível falta de sentido da vida não me interessa. Durmo bem com ela. Sou daqueles que pensam que a metafísica é fruto de indisposição e mau humor. Mas temo o pessimismo kafkiano como nada mais no mundo. Temo a burocracia. Todo amante da burocracia tem cara de rato. Kafka tinha razão.

O pior mundo de Kafka não é sua barata, mas aquele do seu conto “A Construção”. O roedor que faz a “construção” em sua casa é a melhor descrição do inferno burocrático em que o mundo se transformou.

Kafka, à diferença da maioria de nossos especialistas em ciências humanas, sabe que construímos a burocracia para nos sentir seguros, e não porque nos obrigam a isso. E o pior é que existem muitas razões para nos sentirmos inseguros, por isso não há saída para o inferno que é a burocracia.

Algumas almas menos brilhantes assumem que um mundo “paperless” (nada mais ridículo do que usar expressões em inglês para se sentir mais científico), ou seja, sem papel, seria menos burocrático. Risadas… Nada mais horroroso do que alguns restaurantes que começam a trocar seus menus “físicos” por iPads. Logo nos farão escolher nossos pratos via rede, e eles acharão isso o máximo.

Um mundo “paperless” afogar-se-á em senhas. Você precisará de uma senha especial para usar sua senha menos especial e assim sucessivamente, ao infinito. Depois, precisará de um programa superavançado para ter acesso a todas as suas senhas e combiná-las de modo secreto (em si, uma outra senha).

Quando você tiver uma crise diante de tudo isso, algum burocrata dirá para você que isso tudo é para sua segurança. E você será obrigado a concordar, assumindo também uma cara de rato.

Mas, dirão as almas menos brilhantes, graças a Deus estamos cortando menos árvores e não estamos gerando papel.

No conto de Kafka “A Construção”, nosso roedor atarefado teme um ruído horroroso que vem não sabe de onde e por isso começa a construir “rotas de fuga” em sua moradia subterrânea.

Logo, a rede de “rotas de fuga” é tão grande que ele se esquece onde começou e descobre que, apesar de o ruído aumentar cada vez mais e sua sensação de perigo aumentar junto com o ruído, ele já não sabe como fugir, porque suas rotas de fuga viraram um labirinto infernal.

O mundo de Kafka é uma prisão a céu aberto, e os ratos venceram. Feliz Ano-Novo.

JARDIM – RUBEM ALVES

EXTRAÍDO DE :http://www.rubemalves.com.br/jardim.htm

Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos “conhecimento de palavras e ignorância da Palavra”. A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria.”

Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma… Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas… São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.

Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos.

E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu – constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada… Um dia você terá saudades… Vocês, então, saberão…” É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas… O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante… E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido… Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: “Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma…” Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos…

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera… Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios… E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas… Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio… E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:

“No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta.”

Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: “O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso.”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: